A ESFEROGRÁFICA BIC NÃO É O QUE PARECE!

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Foi mais ou menos na altura que entrei para a escola que apareceram as esferográficas BIC. Durante uns anos ainda se usaram as canetas de molhar o aparo no tinteiro, mas gradual e rapidamente as BIC foram tornando obsoletas essas canetas, substituindo-as.

Eram, e ainda são, muito baratas, com um design e uma morfologia geniais que as tornam facilmente adaptáveis a qualquer pessoa. Revolucionaram, até hoje, a forma de escrever.

São usadas por pobres, ricos, operários, escriturários, doutores, políticos, homens, mulheres, crianças. Com elas escrevem, com elas coçam os ouvidos, nelas cravam os dentes quando meditam…

Espalharam-se por todo o mundo, encontrando-se, aos milhões nos países mais evoluídos ou nos mais primitivos, em casa de cada um de nós, nos escritórios, em bancos, nas empresas grandes e nas pequenas, em cima das mesas ou dentro das gavetas, nas cozinhas, nas salas, nos quartos, nos bares nocturnos, nas obras, em mercearias, restaurantes, discotecas, nos gabinetes ministeriais, nos quarteis, nas igrejas, nas tabernas, em navios mercantes ou de guerra, nos aviões, nos automóveis…

São deixadas em todo o lado. Dado o seu baixo custo, ninguém se preocupa em procurar uma BIC perdida ou em guardá-la em local seguro. Se desaparecer, compra-se outra, é o raciocínio de qualquer pessoa.

Criou-se a lenda de que Marcel Bich seu inventor e fabricante teria sido dono de uma visão invulgar, de uma inteligência incomum.

Mas, para mim, não é essa a razão de tão surpreendente invenção.

Para mim, Marcel Bich foi um ser extraterrestre que descobriu a maneira de instalar aquelas pequenas antenas transmissoras, para envio telepático dos segredos que lhe passam pelas pontas, gravando tudo numa base de dados completa sobre os nossos estranhos usos, costumes e até doenças, quando lhes cravamos os dentes e as roemos para facilitar a meditação ou acalmar os nervos.

Sim, porque se bem pensarmos, nada haverá no nosso mundo, nenhuma decisão, nenhuma guerra, nenhuma lei, nenhuma sentença, nenhum sentimento amoroso ou outro, nenhum pensamento, que não tenham passado já pelo bico de uma esferográfica quando reduzidos a escrito.

Essa imensa base de dados tem estado a ser compilada e tratada desde há mais de cinquenta anos algures num planeta distante, para estudo da esquisita raça humana que povoa a Terra.

Raça com comportamentos tão complexos que, apesar dos dados recolhidos, ainda hoje se torna ininteligível, mesmo aos olhos de uma inteligência infinitamente superior à sua.

Que não compreende a obsessão autofágica dessa raça que parece comandar-lhe a fraca mente.

Rui Felício