O Sorriso das Pétalas Amarelas - A Magia da Escrita e dos espaços que nos «Contam» Cultura

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Isto da escrita, como dizia um dos meus favoritos (Gabriel García Márquez), começa por acaso, passa a ser por gosto, até que se torna num vício. A «porra» do vício da escrita - como eu o catalogo. Escrever, como se sabe, é uma actividade quase solitária. Contudo, no meu caso, é também uma actividade divertida, porque eu divirto-me com os personagens que crio e eles, à sua maneira, divertem-se comigo – como que recorrendo a diálogos imaginários. 

O processo é de muitos conhecido. Um livro, na maior parte das vezes, demora anos a escrever. Por vezes décadas. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a próxima Obra que pretendo editar. Três décadas. Acrescidos mais dois ou três meses, para a adaptar a uma realidade intemporal, porque até a ficção exige seriedade.

Depois de concluído um livro, ele deixa se ser apenas nosso e chega a fase das primeiras partilhas: solicitar opiniões e pareceres, auscultar o valor comercial (o que menos interessa aos Autores, mas o que mais interessa às Editoras) e literário. Aqui, chega-se à fase da «angústia do Autor»: ou se está «agarrado» e a publicação não será demorada, ou não se está «agarrado» e a cínica resposta é quase sempre a mesma «Depois de termos analisado a Obra que nos enviou decidimos não publicá-la porque não se enquadra no nosso catálogo editorial. Mas muitos gostaríamos que nos enviasse Obras futuras, para nossa análise!»

Se tivermos a sorte de a Obra ser aprovada para publicação (mesmo que sejamos nós a patrocinar a publicação), ainda temos de viver uma fase mais amargurada: os contratos, que, na maior parte das vezes não se cumprem. A paginação profissional não foi feita. A revisão profissional não foi feita. A qualidade do papel e da impressão deixa muito a desejar. A Promoção é deficiente. Na maior parte das vezes os Direitos de Autor não se pagam ou pagam-se recorrendo à via judicial (cujos custos são muito mais expressivos do que os Direitos de Autor a auferir). Ou a Editora faliu. E por aí adiante. 

Depois de editada, a obra passa a pertencer ao mundo, porque passa a ser comercializada ou porque pode ser consultada nas diversas bibliotecas para aonde temos a sorte que vá parar. Bem ou mal redigida. Bom ou mau conteúdo. E depois, lá vem mais uma vez a felicidade ou infelicidade de quem está ou não está «agarrado». Também disso dependem as críticas – a que, no meu caso, não dou a mínima importância.

Vem isto tudo a propósito do incêndio que ocorreu no Museu Nacional do Rio de Janeiro, fundado por D. João VI, segundo consta o maior museu da América Latina. Decerto que se perderam impressões ímpares de Obras ímpares, para além de tudo o mais. Nunca visitei o museu, mas já visitei alguns, bem como bibliotecas, bem como livrarias, etc. E sempre me fascina, para além do objecto livro que sempre vamos encontrando, tudo o demais, incluindo a arquitectura, que observo despreocupado com as horas, não só devido à minha formação académica, mas principalmente porque não há nada mais belo do que observar com pormenor o belo.

Quando arde um museu com a dimensão daquele que ardeu no Rio de Janeiro, arde um pouquinho do coração dos aficionados da arte, seja ela qual for. E não adianta alegarem-se cortes nos orçamentos para a Cultura, ou meros lapsos. É minha convicção de que, quando arde uma construção com aquela dimensão, estamos a falar de negligência ou de dolo ou das duas coisas - principalmente por parte dos principais responsáveis pela tutela, dos vários governos aonde ocorrem as tragédias.

Não sei porquê, lembrei-me de repente do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Do Museu dos Coches, do Museu Nacional Machado de Castro, da Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra, da Livraria Lello, entre tantos outros espaços de Cultura portugueses - que me fascinam… 

E, de repente, veio-me um aperto ao coração!

© Luís Gil Torga
( Livraria Lello - foto retirada da internet)