A MONARQUIA EM COIMBRA ou A LOUCURA DE UM DIA DE CALOR

 

Na Travessa do Ponto e Virgula, empoleirada no píncaro do morro que a natureza plantou entre a Rua Visconde da Luz e a Rua Ferreira Borges, estava a casa apalaçada de mais de vinte divisões onde vivia o Barão do Calhabé, numas exíguas águas furtadas, dono e senhor de extensas herdades entre o Tovim e os Arcos do Jardim.

Falecido há mais de dez anos, vivia o Barão, desde então, num completo desassossego porque o seu título nobiliárquico e os bens inerentes, só podiam ser transmitidos à filha mais velha que ainda estava por nascer e só depois do seu casamento. A sua irmã mais nova, já casada, a tais pergaminhos não tinha direito por herança, por decreto real do Rei de Portugal que havia de nascer 50 anos depois.

Das profundezas da sua tumba, no cemitério da Conchada, mandou proclamar éditos para que se apresentassem candidatos à mão da tal filha mais velha.

Apareceu um jovem, falecido há dezenas de anos, apresentando os seus atributos. Era um esqueleto bem conservado, onde balançavam três braços musculosos.

Por falta de concorrência, o Barão aceitou de imediato a sua candidatura à mão da filha mais velha que havia de nascer.

Ela gostou logo dele, por ter um braço a menos que os quatro das pessoas normais, facto que a libertaria de trabalho quando tivesse que lhe passar as camisas a ferro.

Ao invés, o pretendente não vivo, começou a desfazer nela por ser uma mulher já demasiado idosa e ainda não nascida.

O casamento não se consumou, a filha mais velha do Barão ainda demorou mais cem anos a nascer e morreu de nova, sempre divorciada, duzentos anos depois.

O Barão exigiu ser exumado e mandou que lhe fosse feito um funeral com pompa e circunstância logo que voltasse a nascer.

O título nobiliárquico caducou, os bens inerentes foram confiscados a favor do bairro da Solum e a designação Calhabé foi substituída por S. José.

Rui Felício

NB: Não, não estou louco. Vou a caminho…

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