Académica vs Coimbra

Académica de Coimbra OAF e cidade de Coimbra. O mesmo fado?

Académica de Coimbra OAF e cidade de Coimbra. O mesmo fado? Sei que é perigoso misturar estes temas, o futebol e a política. No entanto encontro paralelismos vários entre as necessidades de crescimento por uma lado de uma instituição desportiva com o peso da AAC-OAF e por outro as da cidade de Coimbra. E aqui a bota bate com a perdigota. As gentes de Coimbra foram-se afastando da sua Académica e da sua cidade. Primeiro tendo outro amor a centenas de kms de distância e depois progressivamente esse amor pelo clube que ganha, embora distante, foi crescendo e ocupando o espaço da AAC-OAF. Hoje temos muitos habitantes de Coimbra que nutrem alguma simpatia pela instituição desde que não ganhe ao seu amado clube longínquo. Assisti ao longo dos tempos a adeptos no Estádio que saíam contentes ganhasse um ou outro, depois mais contentes se ganhasse o que não poderia “perder pontos”, até chegarmos ao último ano na 1ª Liga quando se insultavam os jogadores de preto por estarem a pontuar com o seu amor longínquo. O mesmo se passa com a cidade. Desde pessoas que vão às compras ao Porto ou a Lisboa porque os artigos são mais bonitos (?) e a escolha é maior, depois trazem algo quase igual ao que há cá mas enfim, até aquelas que vão visitar a Torre de Belém ou os Clérigos e nunca passaram a Porta Férrea ou entraram em Santa Cruz. Discutem o que se passa na gestão das cidades de maior dimensão mas nada ligam à gestão da nossa Coimbra. Isto revela quanto a mim falta de autoestima e algum provincianismo. Escondidos seja atrás de um teclado e de um écran de computador, ainda mais agora com a força das redes sociais, seja na esplanada de um café ou numa reunião de amigos vamos maldizendo ou apoiando, a Académica e a cidade de Coimbra, com mais ou menos razão, com mais ou menos educação, com mais ou menos responsabilidade mas sempre no registo de que isto está mal e “alguém” devia fazer alguma coisa, alguém que não nós, nós não porque não temos obrigação nenhuma de resolver o que aos outros, a “alguém”, é exigido porque é para isso que são pagos, é para isso que existem, é para isso que pagamos impostos. Os outros, “alguém” nós é que não. Cansei-me de delegar no abstrato “alguém”, de esperar pelo anónimo “outros” e decidi fazer a minha parte. Porque a Académica e Coimbra precisam de todos e que todos se importem mas que sejam consequentes. Mais do que dizer que em Coimbra o rei vai nu há que tentar ajudar, propor, fazer melhor. Idem para a Académica. Há que ir aos jogos, apoiar, gritar, envolver-se seriamente. Cansado como disse estar, decidi intensificar a minha presença nos meios da Académica indo a mais jogos fora, participando na RUC nos Relatos Ruc e seus programas, ajudando no que for preciso. Na cidade indo a reuniões camarárias e participando em movimentos que visam mudar a cidade e trazer novas formas de a elevar e melhorar. A Académica está a jogar na segunda Liga e hoje olha para cima, para ver se fica nos lugares de subida à liga principal. Estamos a olhar para cima enquanto a cidade está a olhar para o lado, amorfa e conformada. Os actos que nos levam a olhar para cima são os fogos-de-artifício da noite de fim de ano ou da Rainha Santa e o repuxo no meio do rio. Esteticamente duvidoso, acho eu, enviar água a muitos metros de altura não nos motivou a pensar mais alto mas só a olhar para cima. Já a Académica tem levado muitos de nós a olhar para cima para ir para cima. A instituição tem tudo para ser acarinhada, como a cidade o tem. História, identidade diferenciadora e valores mas enferma do mesmo mal, a indiferença das suas gentes que olham sempre para o seu umbigo, sem disponibilidade para fazer parte da construção de uma cidade melhor. Os tempos são de mudança. A Académica tem criado à sua volta este élan ganhador, o querer ir mais longe, o olhar para cima, uma época que tem corrido de feição e que a meio nos permite sonhar, na política um executivo para os próximos anos, com novos vereadores e correlação de forças, novas ideias e novas dinâmicas. De ambos, AAC-OAF e Câmara, queremos exigência, rigor e busca pela excelência. A ambos pedimos que nos façam sonhar e nos levem mais acima. Neste momento parece ser a AAC-OAF a puxar pela cidade. O jogo da Taça nas Caldas mostrou-o.

Vamos continuar a olhar para o lado ou vamos olhar para cima? Rui Rodrigues, Janeiro 2018