Ana Rita

Ana Rita

O meu pessimismo e desespero, depois de um período longo de estabilização, devido à doença, está agora a desaparecer, ainda que muito lentamente; já me começa a invadir um otimismo sustentável que vai permitir que, no início do ano letivo, que está à porta, possa voltar a Coimbra; até já fui à Filantrópica tratar da papelada; nesse dia aproveitava para assistir à defesa da Tese de fim de Curso de um colega mais velho que, como eu, teve de suportar as tempestades do Claustro; cumprimentei a família e os amigos e já não tive tempo de assistir ao "rasganso", porque tinha de regressar no comboio das 15h.

A razão era que, inesperadamente, fui chamado ao Posto da GNR da Vila, onde já estavam outros estudantes; o Cabo, um sujeito com a mentalidade da velha guarda, fiel à situação, é pessoa que gosta "de passarinhos fritos" e detesta enfrentar os estudantes, "mal comportados", segundo dizem as más-línguas; não nos quis adiantar as razões de tal convocatória, mas foi-nos dizendo que tem um filho estudante já com doze matrículas e que vem avisando o pai que ainda lhe faltam mais treze, porque o curso dele é especial, é por cadeiras( 25) e não por anos; o Cabo insurgiu-se contra nós, pelo facto, de terem rasgado as roupas de meu colega, mas com o seu filho, quando acabar, também, o curso, tal não vai acontecer, rasgarem-lhe as roupas, porque, diz ele, estará presente, nem que seja de Farda de Gala, para impedir tal falta de respeito!

Quando chegou um polícia à paisana de Coimbra, esclareceu-se tudo: queria saber, primeiro, se algum de nós tinha assinado um papel a pedir a Salazar para fazer eleições livres, negámos todos, claro, mas quis saber mais; no fim daquela cerimónia académica, e no meio daquela confusão toda, um Senhor tinha ficado mal tratado, estendido e abandonado no passeio, em frente à Faculdade, onde se realizara o acto do "rasganço"; até agora, disse ele, não foi ninguém, que ninguém viu, ninguém sabe de nada e toda a gente ignora as razões de tão vil desforço; como nós não sabíamos nada, o Cabo disse-nos que havíamos de voltar ao Posto para nos "avivar a memória"; correu aqui o boato que o agredido era um "anjo negro" que seguia, para toda a parte, < sombra do novo "doutor", só por que ele ficara marcado, disseram-lhe mais tarde, por numa aula antiga do Liceu, de Organização Política, "OPA", lhe ter escapado de sua "sub-canina mente de bicho" a infeliz citação que lera algures: "Nos Totalitarismos, pode-se existir, se não se pensar; no Capitalismo, até se pode pensar, mas o Povo viver com total dignidade, pode ser , anormalmente, difícil",

Por este andar, parece-me que as coisas estão a aquecer, politicamente; estou a prever um aproveitamento político provocatório contra os Estudantes pelas "latadas", no princípio de Novembro que está para vir.

Vamos ao que interessa, sempre estás de acordo em te matriculares na Escola de Bencanta? Feitas bem as contas, repito, quando acabares o curso, estou a acabar o meu e, ao acabarmos, devíamos começar a pensar em casamento; mas, para melhor segurança, haveria de celebrar-se um acordo pré-nupcial,

metendo os nossos pais, para que tudo corresse pelo melhor, enquanto não começássemos a trabalhar; pensa em tudo e na melhor forma que as coisas devam correr. Cumprimentos para os teus pais, saudades minhas,

Leonardo

( in, “Cartas a Ana, de Leonardo”. Ed.MinervaCoimbra )

Edgard Panao