Café Santa Cruz

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Quantos de nós não têm um espaço físico dilecto!: aquele café, aquele banco de jardim, aquele areal, colina, monte, rio, mar, borralho e mesmo promontório, de onde se assiste ao nascer e ao pôr-do-sol, e pelas noites fora se olham as luas poéticas, que nunca direi mentirosas!

 E se àquele espaço juntar o do afecto, então caio no colo da meninice, onde um xaile semaneiro sempre embalava um menino, antes de adormecer!

 Desta vez, é do Café Santa Cruz que falo, um dos meus espaços de eleição, belo porque histórico, acolhedor e simpático porque sim, entretanto encerrado dez dias para manutenção. E tal fez de mim um peregrino em busca de abrigo!

Como alguém dizia: - a gente afeiçoa-se às pessoas, cria empatias com quem nos atende à mesa e nos olha do balcão, com quem se cruza e vê no dia-a-dia, com quem partilha os jornais e troca novidades. Uma amiga minha, quando mo refere, chama-lhe o meu escritório e ela bem sabe porquê!

 É que, desde há anos, venho ali encontrando o mítico sossego, quando dou por mim a querer escrever e não encontro outro sítio assim. E sabendo que não sou dos clientes que dão grande lucro à casa, mas nem por isso menos considerado, o meu apego é ainda maior, pela gentileza e familiaridade com que cada um é tratado.

 Nos tempos que correm, é difícil encontrar coisas como estas: pela hora de almoço, ou no decurso de uma saída ocasional, deixar ali guardado o computador e a pasta cheia de documentos, e saber que, se houver recados, eles também serão recebidos e depois transmitidos, não acontece em qualquer lado.

 Mas acontece no Café Santa Cruz, onde sempre decorrem eventos culturais, e ao fim da tarde se pode ouvir um fado. É devido a esta meu afecto que sempre aponho nos meus escritos a data e o local onde os escrevo, espaço emblemático que tanto diz de muitas vidas e gerações.

António Castelo Branco