Capa e Batina para RICARDO JORGE
«CAPA E BATINA»
(…) Não sei em que época nem por que bulas a capa e batina penetrou por
enxertia nas bancadas escolares dos grandes centros. Em Coimbra gosava de
foros tradicionais, que aliás desapareceram em outras antigas cidades
universitárias. (…) Não obstante o meu apêgo ás tradições, não sei porque
esta se manteve na academia coimbrã. Se lá pode pretextar um afinco
passadista, fora dela, não passa duma intrusão serôdia de arcaismo sédiço.
Que sentido fazem essas vestes antiquadas em grandes cidades modernizadas,
como Lisboa, capital duma nação, como o Porto, praça de actividade
comercial?!
É um anacronismo, e até um desafio aos costumes sociais da actualidade. (…)
Hoje a capa é traje incompatibilizado com o desembaraço da vida corrente,
que se não acomoda com mantéus soltos ou traçados, ou dobrados no braço.
Cresce em força esta proscrição indumentaria, quando se atenta nas
exigências cada vez maiores da limpeza, compostura e decência, que se
contrapõem ao uso da capa e batina. Como se há-de ajustar-se similhante
moda, ainda por cima ostentando com gala o seu desalinho, em moços sujeitos
a uma disciplina social de educação e apresentação?
A higiene e o asseio protestam. (…)
(…) A capa e batina têm de ir parar ás lojas dos farrapeiros. Acabem-se os
capigorrões. De capa rôta só os figos para quem quere almoçar.»
Ricardo Jorge in Diário de Notícias de 24.12.1934
Ricardo [de Almeida] Jorge (1858-1939) foi um médico formado pela Escola
Médico-Cirúrgica do Porto em 1879.
Investigador e higienista, professor de Medicina e introdutor em Portugal
das modernas técnicas e conceitos de saúde pública. Exerceu diversos cargos
na administração da saúde, conseguindo uma importante influência política.
(…) Não sei em que época nem por que bulas a capa e batina penetrou por
enxertia nas bancadas escolares dos grandes centros. Em Coimbra gosava de
foros tradicionais, que aliás desapareceram em outras antigas cidades
universitárias. (…) Não obstante o meu apêgo ás tradições, não sei porque
esta se manteve na academia coimbrã. Se lá pode pretextar um afinco
passadista, fora dela, não passa duma intrusão serôdia de arcaismo sédiço.
Que sentido fazem essas vestes antiquadas em grandes cidades modernizadas,
como Lisboa, capital duma nação, como o Porto, praça de actividade
comercial?!
É um anacronismo, e até um desafio aos costumes sociais da actualidade. (…)
Hoje a capa é traje incompatibilizado com o desembaraço da vida corrente,
que se não acomoda com mantéus soltos ou traçados, ou dobrados no braço.
Cresce em força esta proscrição indumentaria, quando se atenta nas
exigências cada vez maiores da limpeza, compostura e decência, que se
contrapõem ao uso da capa e batina. Como se há-de ajustar-se similhante
moda, ainda por cima ostentando com gala o seu desalinho, em moços sujeitos
a uma disciplina social de educação e apresentação?
A higiene e o asseio protestam. (…)
(…) A capa e batina têm de ir parar ás lojas dos farrapeiros. Acabem-se os
capigorrões. De capa rôta só os figos para quem quere almoçar.»
Ricardo Jorge in Diário de Notícias de 24.12.1934
Ricardo [de Almeida] Jorge (1858-1939) foi um médico formado pela Escola
Médico-Cirúrgica do Porto em 1879.
Investigador e higienista, professor de Medicina e introdutor em Portugal
das modernas técnicas e conceitos de saúde pública. Exerceu diversos cargos
na administração da saúde, conseguindo uma importante influência política.
João Baeta
