CASA DE SAÚDE RAINHA SANTA ISABEL - AS MARCHAS DOS SANTOS POPULARES

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Entra-se em Junho e os preparativos das Marchas Populares, na Casa de Saúde Rainha Santa Isabel, em Condeixa, já estão em andamento e adiantados. Organizar diversos grupos não é tarefa fácil, só com a paciência, a tolerância e o amor das Funcionárias é possível. É necessário motivar as Pessoas Assistidas para participarem. Nesse aspecto não tem havido dificuldades. Sei que há ex-doentes que se deslocam todos os anos para assistir e participar nas Marchas Populares. Deixou-lhes marcas e principalmente afectos.

É raro o Português que não tenha recordações dos Santos Populares, de participar, de viver ou assistir a um evento relacionado com Santo António, São João e São Pedro. Quem nunca viu o desfile das Marchas dos Santos Populares, na Avenida da Liberdade em Lisboa? O desfile das Marchas dos Bairros de Setúbal, na Avenida Luísa Tody ou na Praça de Touros Carlos Relvas? Quem não assistiu às Marchas organizadas pelos Padres Redentoristas em Castelo Branco? Quem não foi ao Porto pelo São João levar com o alho porro na cabeça? Quem não foi ao São João de Braga ver os girandoles pelas ruas, ou assistir às tradicionais Festas de São Pedro no Montijo?

Na minha aldeia arraiana não havia marchas populares, havia sim os ranchos das ceifeiras e dos ceifeiros, depois de um dia de sol escaldante, cantando e dançando. Recordo que os mancebos apurados para todo o serviço militar cortavam um longo tronco de pinheiro, o MASTRO, que colocavam a pino no Largo da Praça, enfeitado com rosmaninho e flores roxas. As meninas faziam uma boneca, com vestimentas de várias cores, colocada no coruto. Todo o Povo admirava a obra de arte popular, e no final acendia-se a fogueira em honra de São João, cantando e dançando à sua volta, ao som da concertina do Tio Raul. 

Às vezes havia concorrência com os Mastros da Ladeira, Relva, Santa Bárbara, mas quase sempre o do Largo da Praça ganhava o primeiro prémio. Era o melhor.

Uma senhora idosa, 93 anos, desabafa: “ fiz tantas asneiras nessa época, sinto-as no corpo, subia às arvores, até lá ao cimo…” Revejo-me neste testemunho…

Em Condeixa o espaço para o ensaio é todo de encantos da Mãe Natureza. Assim, no campo das flores, não faltam cravos, rosas, sardinheiras, ginkgo biloba, lígias, limpa garrafas. No das árvores, majestosas nogueiras com os frutinhos a aparecer como pirilampos mágicos, os diospiros, a árvore da longevidade, as laranjeiras com a flor a despedir-se, as tílias com flores a desabrochar, oliveiras, figueiras, romãzeiras, limoeiros com frutos e flores, o feijão verde perfilado como soldado de um batalhão, os xuxos a espreguiçar-se nos apoios aplicados, as ervas aromáticas junto de nós. Não muito longe um tractor esfarrapa e prepara a terra para novas sementeiras, que o pessoal agrícola com os encinhos vai alisando.

No céu, oh! No céu, aves a esvoaçar-nos, melros fatigados com as suas crias, corvos à procura de pinhal, espaço de seu abrigo e fecundação, rolas, milheirinhas, pardais, andorinhas, popas, cucos, e nós a voar sobre um ninho de cucos, um casal de abutres num voo rasante apanha dois ratitos, enquanto á noite, de vez em quando, o pio de um mocho (som de sabedoria) ou de uma coruja, à espreita de uma lamparina de azeite. Cenário que Bernardim Ribeiro descreveu tão melhor.

No intervalo do treino, passa o Assistente Religioso Padre Manuel Alves (será meu parente?), que nos saúda e nos dá a bênção dos Santos Populares.

Com vestimenta adequada, já pronta e atestada aos nossos físicos, começamos com a saudação aos visitantes: “O Sol brilha, sobre a nossa Casa/Os Jardins cheios de flores/Aqui estamos para vos trazer, nossas rosas, o nosso amor. /Rainha Santa Isabel e as rosas que trazia no seu avental/É riqueza muito, muito nossa, das Hospitaleiras deste Portugal…”

O nosso Grupo termina: ”Meu Santo António se tu vires passar/Algum rapaz sem par/Sozinho pela rua/Vai-lhe dizer que eu já tenho um balão/Um arco e uma canção/E a imagem tua…”

Está tudo a postos, vamos alegrar os nossos familiares, amigos e visitantes, na tarde de 16 de Junho.

 

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Junho/2018