Cheira bem, cheira a Coimbra

4-Cheira bem, cheira a Coimbra
I
Ainda tinha só cinco anitos,
gostava de infância feminina
de Marlene, Madelene e Fina,
com vida cheia de dias bonitos,
meninas vestidas de seda de retrós,
caras mais lindas, com o pó de arroz.
II
Chegado da sua aldeia fedida,
um dia à cidade linda, polida,
aconteceu um caso insólito,
em casa da sua tia preferida,
apostado à porta da retrete,
ouvia a Edna, a Lia e a Lisete,
alegres a rir e se demoravam,
mais contrações o apertavam;
logo quando saíram pode ir,
refeito abriu a porta e ao sair,
começou logo a gritar-mamãe,
nunca mais daqui me quero ir;
-mas por quê? inquiriu alguém,
-Coimbra é tão bem cheirosa,
por cá tudo me cheira à rosa.
III
Que foi então o que se passara,
mesmo vidente nunca adivinhara;
foi que entrou logo para a casinha,
quando de lá saíram as priminhas,
sempre perfumadas e ele não sabia;
pensou que da “cáca” o cheiro seria
e que toda a cidade cheirava bem;
IV
Pelo odor impregnado dissera à mãe,
que nunca mais de Coimbra sairia
o que de todo inimaginável parecia;
e não é que o aleatório destino cedeu
e dois decénios intermitentes lá andou
e nunca sairia de lá por querer seu.
mas porque o fim do andar chegou,
tanto estudou, que mais estudar acabou.
e ali cumpriu, em anos de felicidade,
o académico desterro da mocidade.

Edgard Panão
( in, Campos de Arruda. Ed. MinervaCoimbra)