COIMBRA MORTA

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Sonho que Coimbra morreu

(último golpe profundo!)

e que a sua alma desceu

do seu brando rio ao fundo.

 

Tal Santa Iria do Tejo,

já Coimbra dorme em sossego,

sorrindo, no eterno beijo,

no sepulcro do Mondego.

 

O rio abriu-lhe a dor,

e acariciando a dor,

deu-lhe nos lábios, com jeito,

um grande beijo de amor.

 

Floriu com piedade rara

p’la Morta que ali descera,

o monte de Santa Clara

de rosas da Primavera.

 

A alma ideal da cidade

rodeiam-na, em doce pranto,

Dona Inês com a saudade,

Santa Isabel com encanto.

 

E a estas formas divinas,

vagas se vem ajuntando

freirinhas doce – neblinas,

por alma dela rezando.

 

E vêm, pl’as brumas violetas,

trazer-lhe as suas canções,

os fantasmas dos poetas

guiados pelo Camões.

 

À volta da morta brilha

no fundo, entre choupos finos

o burgo de maravilha

- Conventos e Claustros, Sinos…

 

Tudo que havia lindo

e os homens foram matando,

no fundo ressuscitando,

renasceu, ficou dormindo.

 

E Coimbra, morta de mágoa,

dorme no rio, entre flores.

-Oh lágrimas, sois a água!

nome que passaste – Amores…

Carlos Ferrão

in Afonso Lopes Vieira, “País lilás, desterro azul”, Lisboa - 1922, Sociedade Portugal-Brasil, pág. 45-47

- lustração: Pedro Olayo (filho) “Vista de Coimbra” - Óleo sobre platex - Dim:18x24 cm