CRÓNICA

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A falta das palavras.

A memória ficou fraca, já não se lembra quando foi ao primeiro baile, mas recorda que as raparigas da sua rua iam com as mães e ficavam de olho em tudo. A estreia era sempre uma aventura, a primeira vez era um acontecimento que se vivia antecipadamente com muita ansiedade e receio. A menina Dolores, que tem agora mais de noventa anos, gosta de mostrar uma fotografia puída pelo tempo, onde aparece com o vestido que a mãe e a avó Lúcia costuraram. Fala das cores que não se veem na fotografia, das horas de prova e dos ralhetes para estar quieta. Eram semanas a fio: escolher o tecido, fazer o feitio, depois o corte e as sucessivas provas até cair bem no corpo. Os dias anteriores ao baile eram de nervosismo, o vestido depois de pronto era pendurado até à hora de se apresentar. A menina Dolores diz que o maior problema eram os sapatos altos, não conseguia “segurar-se naquilo”. O vestido era guardado, nem as amigas podiam vê-lo, o segredo era total. Na noite mais esperada, as adolescentes começavam a chegar ao salão com a família. À frente seguia o pai, a abrir caminho, a seguir a jovem e a fechar o cortejo a mãe e a avó. Todos tinham lugar marcado no cadeiral. A entrada era lenta para que todos pudessem observar as jovens. Havia nesse ritual muito de afirmação social da época. A festa acontecia todos os anos, no fim de Agosto, quando se cultuava a Nossa Senhora de Aracelis (Altar dos Céus). Os agricultores pediam-lhe boas colheitas, seguindo em peregrinação com a sua imagem. Coincidia com o verão e o regresso de muitos filhos da terra que vinham para a romaria. Quem visita a ermida caiada pode deslumbrar-se com a lonjura que tudo abrange.

Na preparação do Baile da Espiga, que se realizava na noite do último sábado de Agosto, as ruas eram perfumadas com rosmaninho e esteva. A menina Dolores recorda que o cheirinho a ajudava a acalmar. Quando olha a foto, vestida a rigor, ainda sente uma dor no peito. A avó Lúcia era quem a incentivava e a elogiava, por isso, bastava um olhar para se apaziguar. No cadeiral as jovens sentavam-se à frente, ficando a segunda fila reservada às famílias. Impreterivelmente, às 21h00, o conjunto musical iniciava o baile com uma valsa. Segundo a tradição era sorteada a jovem que abria o baile, sendo anunciada na varanda da Sociedade Filarmónica. O momento era solene e o nervosismo tomava conta das jovens e das famílias. A importância da sorte podia ditar um bom casamento. Ao som da música um pregoeiro enfatuado, uma espécie de mestre-de-cerimónias, anunciava o nome da jovem perante uma multidão expectante. O ritual incluía três momentos: agradecia a presença de todos, depois mostrava o “pergaminho” e, finalmente, lia em voz troante o nome da jovem. Todos os olhares se viraram para Dolores naquele dia inefável. Seguia-se o momento mais difícil. A partir daquele instante o seu anonimato pertencia ao passado. Um jovem alto, que ela nunca tinha visto, convidou-a a dançar. Ao som da valsa de Strauss iniciava-se a noite mais longa de todos os sonhos. Pelas cartas, sabemos que nesse dia nasceu uma história de amor. Dolores gosta de dizer que gastou quase todas as palavras a contar a sua história. Apesar da sua longa vida, ainda tem um segredo bem guardado: “O Miguel nunca quis ficar na terra, foi para Coimbra. O pai era amigo da família Belard que tinha quintas nas Beiras e que o acolheu. Enquanto esteve lá a estudar escrevia-me. Tenho aqui um poema que digo todas as noites antes de adormecer, como se fosse uma oração, nunca o esquecerei”.

Faltam palavras para contar esta história numa crónica. A Dolores merece um romance.

António Vilhena

 imagem retirada da net