Curiosidade mórbida

Curiosidade mórbida

Naquele ano, num maio quente, decorria a Queima das Fitas, em Coimbra; no domingo havia a Garraiada dos Estudantes, às 16 horas (dizia o Cartaz, às quatro, para os analfabetos), na Figueira da Foz; a CP fornecia um comboio especial, com saída às 12 horas e chegada às 19 horas, à Estação Velha. Claro que a esmagadora maioria dos viajantes eram estudantes que já estivessem acordados da ressaca do Baile de Gala, terminado poucas horas antes! Nessa altura, a via férrea, ainda, não era eletrificada e, por isso, pode ver-se em fotos antigas, a lotação não esgotava, até porque se podia ir pendurado, ou em cima, das carruagens; algumas eram muito antigas, do tempo em que o seu interior era iluminado por candeeiros a petróleo, enfiados em buracos, no teto da carruagem, por cima e por fora! O calor era muito e o aperto era grande, de modo que as nossas colegas aliviavam-se, embora ligeiramente, e conforme podiam, de suas leves roupas de Verão, que ainda não o era, mas era como se o fosse!
Havia, então, em Coimbra um estudante um pouco estranho, mirone, espreitador por hábito de decotes femininos, por isso, o alcunharam de "O Maminhas"!; naquele comboio, subiu ao tejadilho da carruagem, desenfiou um candeeiro e olhou para baixo, em exclusivo e pelo tempo que lhe permitiu o cansaço do braço levantado com o assaz pesado candeeiro, na mão; mas, um estudante da Comissão da Garraiada, chateado, que a namorada cujo decote era visado de cima, pelo mirone, era toda sua, apanhou o atrevido rapaz, na estação da Figueira, obrigou-o a ir consigo e colocou-o em cima dos curros onde estacionavam os garraios, a lidar naquela tarde.

- Já que gostas de espreitar por buracos, vais espreitar neste e com uma vara, com um aguilhão, espicaças os garraios que queremos uma festa animada na arena, disse-lhe e foi-se! Ao que se constou, a Garraiada, naquele ano, foi memorável, pela bravura dos garraios!
Uns anos depois, não se sabe quando, uma Assistente de Psicologia Clinica, levou para a aula o tema: "a curiosidade humana, essa irreprimível qualidade que leva o homem à criação da Filosofia e da Ciência, num impulso de querer saber o "Porquê" e "Como" das coisas criadas!" A Assistente que andava a preparar nas aulas, um seminário sobre a curiosidade, mas da mórbida, escolheu o "objecto" para estudo: "O Maminhas", que começou logo a desenvolver, assim:

-Andara a estudar em Coimbra, um jovem, a quem apelidaram de "O Maminhas", com quem, de vista e do alto, ela já se cruzara na vida!
Resumindo,  parte da sua comunicação:

- "O Maminhas", teria os seus dois aninhas, e ainda mamava leite materno; um dia, sua mãe foi operada à apendicite e a comadre dela encarregou-se de o amamentar, ao mesmo tempo que a sua filhinha, um pouco mais nova; fazia-o, sem dificuldade, que o leite tão farto era, como ela era de peitos! O bebé, ou porque sua mãe era tão curta de leite, quanto de peitos, ou porque persistia em alongar o período inicial da sua fase normal de crescimento, só queria mamar na comadre da sua mãe; quando no olho dele, alguém lhe fixava os olhos, o maroto virava-se, ria-se trinado, escondia a cabecita nos peitos da ama à procura da mamar, na zona que era quase de exclusividade sua. Um dia, o marido aborrecido tirou-o do colo da esposa para o levar, em definitivo, à mãe, dizendo-lhe:

 - Oh! Mulher, que raio de história é esta, que só o puto é que goza!

Tratava-se de um caso clínico interessante, e algo incomum, que levou, após a aula terminar, alguns alunos interessados em saber pormenores, mas mais para disfrutar a jovem  Assistente, no Bar da Faculdade, onde  devido tanto ruído,a concentração não era favorável para aprofundar tal caso; realmente, sabe-se que o período máximo de tempo em que o homem pode prestar atenção a algo, sem intermitência, é, apenas de 12 segundos.
A cortar o discurso da docente, um aluno interveio, presuntivamente, a despropósito, mas para lhe acelerar o final; o despachado ouvinte, perguntou onde é que parava hoje "O Maminhas".    A Assistente não respondeu, surpresa; mas mais surpresa ficou, quando o aluno, natural da Azinhaga de Salvaterra, perguntou, atrevido:

- Professora, foi uma Tourada em grande, aquela da Figueira da Foz, onde tudo começou!
Antes da saída, levaram da Assistente, serena e saindo por cima, esta resposta direta:

- Foi uma Corrida monumental; só não houve "touros de morte", para não fazer órfãos!

 Quanto  a " O Maminhas", diz-se, curou-se com uma medicina caseira: noivou com uma ruiva, brava e muito ciumenta! Isto era  o que constava! Teria sido uma das conclusões do Seminário que não deixou indiferentes, nem docente, nem discentes: Os "Maminhas" não acabam nunca, enquanto as mulheres derem à luz!

Edgard Panão

(in Trautos de Miranda  Ed.MinervaCoimbra)