Da insustentável chateza das vidas sem passado!


Ana, optei por te enviar, em vez do habitual telegrama, este aerograma para dizer que chego a Lisboa, na TAP, na manhã do próximo dia 21. E agora o insólito: .
Chegou,hoje, ao hotel aqui em Luanda um casal com dois filhos, funcionários superiores da Diamang de Angola, que, regressam da Lunda, para a sede em Lisboa.
Ele foi ter comigo à mesa de jantar e logo o identifiquei; o que, aliás, não foi difícil, apesar de termos sido colegas, nos longínquos anos de 1948-1950, quando ainda estudávamos na qualidade de "bichos" e eu atravessava aquele período de adaptação, após a saída do claustro. Era o Barbarruiva, que o seu cabelo seria mais "ruivo que as barbas de uma espiga de milho rei! Tomámos o café juntos, no bar do hotel, acompanhados dos dois filhinhos do casal, mas só o rapaz tinha o cabelo do pai;
Todos sabemos que quando se está fora de casa, fica-se mais atreito a evocar passados comuns de tempos e em espaços avivados pela saudade; no nosso caso, de antigos estudantes e na velha Coimbra! Nesses tempos, ao contrário de mim, ele era reservado, bom aluno, bem comportado, assíduo às aulas, introvertido mas simpático, não se dava bem a passar noites, em claro, a conversar sem dizer quase nada, só quase falando, não gostava de patuscadas e havia ainda outras desafinidades comigo que recordámos; porém, acontecia todos anos um acordo, no meio de todas as nossas diferenças: ambos gostávamos de "escorropichar a taça, que em Maio, nos era servida cheia de seis maravilhosos dias da Queima das Fitas",No fim do liceu, quando entrámos na Faculdade, ele seguiu para Lisboa e nunca mais nos vimos, embora as famílias dele e da esposa sejam de Coimbra, onde agora vêm, mais vezes, mostrar os netos aos respetivos avós, felizmente ainda vivos.
Para um possível reencontro, deram-me um cartão, com o número de telefone de contacto, onde pude ler: Joana de Albuquerque Sobral e Joaquim Dinis Reis Sobral, Engenheiros pelo ISTL. Seria possível?! Joana! aquela namorada platónica que vira, uma só vez, havia alguns anos, em Coimbra! Chocado procurei demorar a leitura para me conter por uns breves instantes! Quando levantei os olhos, sob um velado impulso, perguntei à Esposa se não costumava, também, evocar para as colegas e para o marido os seus tempos de Estudante de Coimbra; pouco, respondeu, "porque saí cedo de lá, nas férias de Natal, quando frequentava, ainda, o curso dos Liceus; além disso, as alunas internas das Freiras quase nunca têm grande coisa que mereça ser recordada!
Mas não esquecerei, jamais, aquele estranho e gostoso episódio que contei, vezes sem conta, enquanto namorávamos.
"Tinha quinze anos, andava no quarto ano, quando fui cortejada pela primeira vez, na vida; ia com as minhas colegas num cortejo fúnebre; tendo-me atrasado, por qualquer motivo, de repente, fiquei presa à mão de um jovem incorporado no mesmo cortejo; lesto, perguntou-me donde era e o meu nome; o meu nome, não sei bem porquê, disse-lho com um infantil ar de sedutora, sou Joana e sou de Coimbra; ele disse-me o nome, não era vulgar, que agora não consigo recordar, mas que ainda deve estar no meu diário de adolescente. Era um jovem, um pouco mais que menino, talvez, mais novo do que eu; era magro, pálido, de cara linda, sorriso engraçado, com o cabelo tão desalinhado que me pareceu de rebelde e atrevido adolescente; um excelente motivo para criar um gostoso mito de amor platónico! Só que ao ver, no meu rosto, que estranhei vê-lo, assim, todo vestido de negro, logo se apressou a dizer-me que, também, era interno de um claustro".
O casal concluiu que seria interessante saber se aquele menino, tão "prometedor", conseguiu prosseguir o seu admirável "curriculum de enamorado" e qual seria, no presente, o seu "cursus honorum", de homem apaixonado e se estaria casado e com filhos!
Fui com eles, eram 23h, ao Aeroporto; fizeram questão de repetir, várias vezes, que te apresentasse os seus cumprimentos e que gostariam imenso de te conhecer; ao dirigirem-se ao embarque os quatro fizeram muitos "adeus" e, ao passarem pela porta, talvez, porque o pai estava demasiado ocupado com a irrequietude dos filhos, só me pude fixar naquele sorriso de Joana, (que vira há mais de dezoito anos atrás,) e ainda consegui ler nos seus lábios
Vemo-nos em Coimbra; leve consigo a Ana Rita e os meninos; não se esqueça dos retratos dos seus colegas do Claustro para ver se identificamos “aquele menino precoce vestido de negro!”( afinal,Joana não me reconhecera!)
Anui em almoçarmos; até porque gostaria de lhes narrar que, eu também, lá carregara um mito amoroso que só alijei na tarde daquele verão quente quando um pré-sucático trem de ferro cansado da guerra, te levou, Ana, a Porto Seguro, para nos apaixonarmos, imediatamente, e começar um romance que durou quase seis anos, quatro deles em Coimbra, e há quase sete anos que estamos casados e felizes com os nossos dois filhos
Ana, em menos de urna semana, estarei aí contigo, com os nossos filhos nos braços! Leonardo
Edgard Panão
( in,Cartas a Ana, de Leonardo.
(We shall meet again in Coimbra)
Breve Ensaio sobre epistolografia amorosa
Coimbra
Meados do século XX
Ed. MinervaCoimbra-2007
(Nota: esta foi a última das mais de cem cartas desta obra)