Do épico Luís de Camões ao celebérrimo Pica

 

Desde que D. Dinis ordenou a implantação da Universidade na pacata e nostálgica Coimbra, que nela existiram "estudantes boémios".

De entre essas figuras lendárias, lembremo-nos, por exemplo, do épico LUIS DE CAMÕES, de reconhecida génese romântica e um inveterado aventureiro conquistador, indistintamente, de populares moçoilas tricanas e de donzelas do "jet set" daquelas eras, na cidade do Mondego.

Para além dele, no decorrer do tempo, outros houve que se notabilizaram pelo seu carácter irreverente e extrovertido, nada condizente , com uma Coimbra de então, de brandos costumes, religiosamente consevadora e apenas perturbada pela divisão partidária entre ESTUDANTES (da parte Alta) e FUTRICAS (da parte Baixa), cujas tradicionais rixas fizeram história e alteravam a pacatez e misantropia da vida coimbrã.

Dos últimos genuinos "estudantes boémios", o universitário FONSECA, alcunhado de "Fonseca da Burra", que, entre outras façanhas, entrou certa tade e de rompante, montado num gerico, pelo distinto e aristocrático salão da Pasteleria Central, repleto das mais insignes "madames da alta roda", no seu tradicional e "snob" chá- das- cinco.

Depois dele e sem dúvida, os derradeiros a merecerem o título de genuinos "estudantes boémios", o CONDORCET, mais tarde distinto médico, com as suas acintosas partidas , baseadas no ilusionismo, o PANTALEÃO de "bebedeiras" monumentais, embora inocentes e particularmente graciosas,. O magricela HERCULANO OLIVEIRA que afinava no mesmo diapasão. O consagrado CASTELÃO DE ALMEIDA, o mais famoso "dux veteranorum" da academia de sempre que para além das farras e noitadas, teve o talento de fundar, em 1929, o emblemático jornal "O PONEY", em cujas páginas, o seu humor e sátira, em simbiose, contundentes, não perdoava nem aos Lentes, às autoridades, ao governo e até às Comissões de Censura da época.

E, com o PICA, findou por completo e para sempre, a centenária dinastia dos verdadeiros "estudantes boémios" de Coimbra, já que a modernidade extinguiu o seu natural "habitat" e porque a mocidade estudantil se subjugou a outras diversas e multifacetadas motivações.

A senda do progresso, na sua galopante arrancada, não só fez destruir, condenável e impiedosamente, à força do camartelo, as seculares ruas da antiga Alta Salatina (verdadeiro património da cidade), como fez desaparecer ou deturpar algumas das mais vetustas tradições académicas, designadamente, a QUEIMA DAS FITAS que, mau grado, a melhor intenção dos seus organizadores, não tem passado de um verdadeiro "festival de cerveja" e suas inconvenientes repercussões, com cortejos, onde a alegoria a factos e personagens, ao contrário de antanho, carece de total imaginação, chegando mesmo ao insulto e até ao limiar do erotismo..

E, onde pára o histórico uso sistemático da CAPA E BATINA, agora substituída pelas sofisticadas roupagens "made in América", que tanto deslustram a Porta Férrea, as Escadas Minerva e os Gerais da Universidade de Coimbra e tanto ofendem as centenárias tradições académicas, de quem sou escravo devoto e que deveriam persistir "in perpetuum"?

 

Por António Curado , jogador, antigo estudante e presidente da Casa Académica do Porto – 1999

(António Curado também foi director d’ O Ponney)

Nela Curado