Histórias da Velha Alta
Histórias verdadeiras da Velha Alta
Hoje venho falar-te da Capitó, de seu verdadeiro nome Capitolina.
Quem é esta mulher? Uma tricana, uma criada das Repúblicas, uma senhora, uma mulher muito bonita, culta, nascida em Maiorca.
Eu nasci na Rua do Borralho, ou melhor, Rua de Monplier, que ninguém conhecia, nem o carteiro. Com a demolição dessa parte para a construção da BGU e do Arquivo, fui viver para o Beco dos Militares, paredes meias com o Hospital dos Lázaros, ou o Hospital do Castelo.
No beco já morava a Capitó, e as traseiras da casa dela davam para a cerca do hospital, onde em tempos tinha havido uma leprosaria.
Ora a nossa amiga, que era solteira, tinha um namorado, pessoa ligada à Universidade. Tinha também uma cadeira muito engraçada (nunca vi outra), em que se sentava à porta de casa, e onde muitas vezes cochilava. Numa bela tarde, tendo passado pelas “brasas”, e como o quarto de dormir era contínuo à sala de entrada, olhou e viu debaixo da cama uma “cobra”.
Começou a gritar e a chamar pelo Ti Augusto sapateiro. Lá vai o Augusto armado para caçar a dita cuja, até porque havia cobras, vinham da cerca e também do Jardim Botânico. Só que, quando ele sai debaixo da cama, a cobra não era nada mais nada menos que uma gravata preta.
Durante muitos dias houve falatório e risada. Até os pequenitos, como eu, passavam a correr e gritavam “olha a cobra”.
Digo-te ainda que a Capitó, juntamente com uma outra de seu nome Cândida, mas que todos chamavam carinhosamente Candinha, eram duas figuras ímpares na Alta. Tinham amigos em todas as altas camadas sociais. De vez em quando, esses amigos vinham fazer-lhes serenatas. O emissor Rádio Clube Português andou durante várias semanas a entrevistá-las; fez uma grande reportagem sobre estas mulheres. Pena ter-se perdido, ou não…
Tempos tão diferentes dos dias de hoje…
I. Vilão
