Incrível história de Antenor Vicente
O Brasileiro de torna-viagem
O Antenor Vicente não teve infância feliz, nem a podia ter, segundo contaram os tios que eram vizinhos; o seu pai, emigrou para o Brasil, nos fins do século dezanove e assim que lá chegou, topou uma linda cabocla de cor ebúrnea para casar e, com isso arranjou urna encrenca do tamanho do Estado de S. Paulo; ao que o pai costumava contar, a sua senhora deu-lhe, de três assentadas, seis filhos, todos gémeos, que muito contribuíram para lhe azedar a vida e lhe fazer minguar a vontade de estar tão longe da sua terra natal, onde pobre e pouco feliz, se sentia melhor.
Decidiu, então, até para se livrar, definitivamente, da cachaça (água que passarinho não bebe),voltar para Portugal, mas a sua nativa senhora, preferiu ficar com o resto da família e recusou-se acompanhá-lo; no regresso, só lhe pediu que trouxesse o filho mais velho, o Antenor, que o gémeo dele morrera, ainda em criança.
O Vicente, como era mais conhecido, virou-se como pôde no lugarejo para onde veio residir, até aos dezoito anos. Sem uma escola primária na aldeia, pouco conseguiu avançar nas letras, porque só tinha, como ajuda, o avô que, apenas, sabia ler e não sabia escrever; convém lembrar, que o Método Legográfico, que consistia em ensinar a ler e a escrever, ao mesmo tempo, ainda só era usado nas escolas primárias oficiais, que os mestres particulares não o usavam, até porque exigia muito mais esforço de ambas as partes, professores e alunos.
A fuga para o Brasil
Um dia, resolveu fugir da casa paterna para voltar para o Brasil, terra que o seu pai amaldiçoava, constantemente, quase de noite e de dia, bem como a sua tormentosa e desgastante viagem, feita num velho barco à vela. Vicente seguiu para o Brasil, até para fugir à Grande Guerra da Europa; embarcou em 1914, já num barco a vapor que oferecia a quem quisesse ir trabalhar para S. Paulo, viagens gratuitas e rápidas e, ainda as seguintes vantagens a bordo: boa comida, vinho grátis às refeições, criados a falarem em português, o barco iluminado a eletricidade, telegrafia sem fios, etc., etc., tal era a feroz concorrência entre as Companhias com os novos vapores de linha, no Atlântico Sul.
Aquela imensa S. Paulo, sempre em crescimento, na periferia, de bairros abarracados, havia de ter por algures familiares seus, em alguma daquelas vilas-misérias; mas, durante tantos meses, foi tarefa, sem êxito, procurá-los para ajuda ou para os reconhecer. Antenor arranjou emprego, num patrão que, como ele, chegara a S. Paulo com uma "mão à frente e outra atrás", mas fez fortuna e foi-se tornando pedante, à medida que ia enriquecendo; sobretudo, para os compatriotas que lhe iam pedir trabalho, quase por esmola. O jovem Vicente, não era muito encorpado, mas mostrava-se cheio de vontade de se promover, como que a lembrar uma espécie de granada que, mesmo pequena, tem dentro de si a capacidade para libertar forças imensas.
Situação difícil
Um dia, o patrão perguntou-lhe se ele sabia quem tinha sido o "focinho de porco" que tinha ido, abusivamente, ao banheiro do patrão; como era costume, naquele tempo, havia a servir de papel higiénico, pequenos retângulos de papel cortados de um jornal. O patrão, diariamente, assinava a"Folha de S. Paulo", para saber da cotação do café e para ver se ali vinham os nomes, dos seus, o seu e dos seus amigos, na coluna social; apesar do jornal envelhecer todos os dias, não se lhe perdia a utilidade. "Ninguém andava de soltura", lá em casa, que ele soubesse, mas frequentemente, as folhas do jornal, para uso higiénico, levavam sumiço e a reposição, dos mesmos, por vezes, tinha de ser quase diária; pensando que era o Vicente que utilizava o seu banheiro privado, chamou-o ao alto da casa, estilo barroco, a uma das mansardas;, apontando com o dedo espetado no ar na direção nor-nordeste, disse-lhe, solenemente: — "Olhe, seu mazombo, a sua privada é dali, da frente daquele muro do jardim, junto à estrada, naqueles terrenos que vão até às terras alagadiças de Santos ";e vá lá seu cambembe que tá com sorte pra caramba, que se côcô fosse dinheiro, pobre não tinha cú, não!"
Um Final feliz
Anos m ais tarde, no momento de dar a mão da sua filha ao seu empregado Vicente, o patrão pediu-lhe desculpa de, no princípio da sua relação de trabalho, o ter tratado de uma forma tão desprezível; então, Vicente disse-lhe que não tinha que o desculpar; que fora ele realmente que entrara, várias vezes, para trazer, furtivamente, as folhas de jornal do belo banheiro, à entrada do qual, ao seu arquiteto mandou escrever, em azulejos repenicados, "Domus Estercária"; depois, deixou de lá ir e começou a ler o jornal e livros, emprestados pelo senhor Gil Galego, dono dos "Secos e Molhados"; à falta de recursos, com aqueles pequenos retângulos de papel, depois, com as folhas inteiras, começou a aplicar-se à leitura e à compreensão dos textos e, hoje, mostrava-se muito orgulhoso de se ter reparado para fazer, com êxito, o Vestibular. Nem se lamentava de ter dado destino alternativo àquelas folhas, porque não era pelo facto de se "passarem as letras pelo olho", com a licença da senhora futura sogra, Dona Cécia Beato Martelo das Chagas do Juízo Final, que alguém conseguia tirar um curso, mesmo que continuasse a frequentar o banheiro, uma vida inteira; veja-se o caso do futuro cunhado, que não passou nunca do Ginásio!
Este casamento, foi mais feliz que o do pai que o deitara neste nu e sem futuro risonho.
Edgard Panão
( in, Trautos de Miranda de Joaquim de Miranda Ed. MinervaCoimbra )
