“Laudate in choro et organo”: concerto de canto gregoriano e órgão
No próximo dia 6 de Novembro, às 17h, a Capela Gregoriana Psalterium apresenta na Igreja de S. José, em Coimbra, o recital de canto gregoriano e órgão “Laudate in choro et organo”.
Este recital explora a relação próxima entre o canto gregoriano, a polifonia clássica e o reportório para órgão de tubos. De facto, nas igrejas cristãs do Ocidente, o órgão de tubos é o instrumento litúrgico por excelência. Embora a construção de órgãos de tubos para salas de concerto se tenha vulgarizado a partir do século XIX, estes instrumentos encontram-se sobretudo em locais de culto. O órgão de tubos tem origem no órgão hidráulico de Ctesíbio de Alexandria, tendo assumido uma certa proeminência durante o Império Romano, estando então muito associado aos banquetes, ao teatro e ao circo. Desconhece-se quando terá entrado o órgão na igreja, dada a oposição da igreja primitiva ao uso de instrumentos no culto, sendo o órgão particularmente rejeitado devida à associação ao circo romano. O reaparecimento do órgão no Ocidente teve a sua génese na oferta de um órgão, a Pepino o Breve, pelo imperador bizantino Constantino V. A construção de órgãos floresceu então na Alemanha do século IX. Existem relatos de órgãos em igrejas bem antes do século X, mas os documentos não relacionam o instrumento com o seu uso na liturgia até ao séc. XII, e só no Renascimento é que este uso se dissemina pela Europa.
A música para órgão mais antiga preservada, a partir do séc. XIV, encontra-se escrita sobretudo na forma alternatim, pequenos versos para o ordinário da missa, para hinos e sequências, salmos e cânticos (particularmente o Magnificat), destinados a ser executados em alternância com partes cantadas. Na Reforma protestante, Calvino e Zwingli baniram o órgão do culto e, por influência calvinista, ocorreu uma destruição maciça de órgãos na Commonwealth inglesa. Já Lutero não se opunha tão fortemente, tolerando o órgão, sobretudo pelo seu amor à música e pelo seu apreço pelo órgão. A execução alternatim, agora também com corais luteranos, floresceu no culto dos círculos luteranos durante o séc. XVI. Foi na Alemanha protestante do séc. XVII que teve início o uso do órgão para acompanhar o canto da assembleia, o que trouxe uma nova vitalidade ao instrumento. A prática teve tal sucesso que, no fim do século XIX, poucas igrejas protestantes insistiam no canto da assembleia sem acompanhamento. Com o concílio Vaticano II, esta prática disseminou-se também na igreja católica.
No recital preparado pela Capela Gregoriana Psalterium, são ilustrados alguns destes momentos históricos. A prática em alternatim é aplicada ao célebre hino mariano “Ave Maris Stella”, executado em alternância entre o coro e versos organísticos das “Flores de Música” de Manuel Rodrigues Coelho (uma das primeiras obras musicais impressas em Portugal). Em contraponto com o canto gregoriano, serão ainda executadas obras de Bach, António Carreira e César Franck (em órgão), bem como de Vitória, Mário de Sousa Santos e Manuel Faria (em polifonia).
Este recital tem entrada livre e destina-se a angariar fundos para a próxima digressão da Capela Gregoriana Psalterium a Roma, onde participará em particular numa celebração na Basílica de S. Pedro do Vaticano.
3 de Novembro de 2016
Rui Vilão
