LUIS DE CAMÕES E PICA - OS DEPORTADOS

Estávamos nos finais dos anos trinta. Surgiu Felisberto Pica, abalado de Santiago do Cacém, com o intuito de se licenciar em Medicina.

De estatura meã, cara de bonacheirão, bigode fininho, sorriso malandreco, num todo... a irradiar simpatia.

Hospeda-se na Pensão Antunes, preferida pelos estudantes, sita, perto dos Arcos do Jardim, ainda existente na actualidade.

O Pica, porém, apesar dos anos decorridos com a inseparável capa e batina, nunca conseguiu obter o "canudo" de Médico, na Universidade de Coimbra.

Primeiro, porque foi sempre um reincidente "pecador" na arte de estudar, para quem os livros e "sebentas", pesavam em demasia.

Segundo, porque as suas excelsas "virtudes" de inveterado e irreverente "bon vivant" (diurno e noctívago) não lhe deixavam tempo e disposição para ser um fiel súbdito da sábia deusa Minerva, a qual nunca conseguiu amadrilhá-lo.

Diga-se, contudo, que a fundamental e decisiva razão que ditou o insucesso escolar do Pica, na Lusa Atenas, deve-se ao inusitado facto, de ter sido institucionalmente expulso da Comarca de Coimbra ( numa área de 5O Km quadrados) a que foi condenado pelo tribunal, porque o seu número de prisões por pequenos delitos( originados pelas "farras"), excedera o montante previsto na lei, o que motivou em boa hora,a sua transferência para o Porto, onde com notável mérito, acabou a sua formatura em Medicina.

Todavia, o inacreditável decorrer do julgamento que sancionoou tão drástica condenação, (inédita até agora na jurisdição coimbrã), bem merece ser narrada, embora sucintamente e sem o colorido hilariante cenário que o envolveu.

Ora atentem, pois, em tal insólito.

Palácio da Justiça na rua da Sofia. A grande sala de audiências cheia, a transbordar de capas negras e de público admirador do Pica, também ele trajando de estudante. O interrogatório foi feito com generalizada boa disposição.

Juízes, advogados de defesa e de acusação (apenas o do Ministério Público), polícias depoentes e autores das prisões do PICA, bem como a enorme assistência, todos a comportarem-se como se estivessem numa autêntica festa de confraternização. Emfim, tudo e todos, pela absolvição!

Mas, "dura lex et lex".

O juís ergueu-se e entre sorriso mal dissimulado, declarou:

- Levante-se o réu. Pelo acumulativo das prisões, conforme a lei determina, sou obrigado a condená-lo à expulsão da Comarca de Coimbra, não podendo nela residir ou deslocar-se, numa área de 5O K quadrados. Adeus senhor PICA. Está encerrada a sessão.

Um profundo silêncio invadiu a sala do tribunal. Então. recordando, sem dúvida, 

o igual destino que séculos atrás, acontecera ao épico autor dos Lusíadas, também ele condenado ao desterro para a Índia, o espotâneo PICA, erguendo-se de braços abertos, qual Cristo Rei, declamou em voz alta, com encenada comoção;

- EXILADO?!!! - OH, MEU DEUS!!!!´- SÓ EU E LUÍS DE CAMÕES.

- TAMBÉM FICAREI PARA A HISTÓRIA!!!

Perante tão inesperada reacção do "condenado", nunca as respeitáveis entranhas da sala de audiências foram testemunha de tamanho festim de gargalhadas, a quem até os doutos juízes e advogados não resistiram.

Os seus "gloriosos feitos", farão sempre parte das lendas e narrativas do historial da academia e da própria cidade de COIMBRA.

SAUDOSO amigo

Por António Curado 1999

Nela Curado

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