Memórias do Liceu D. João III
Memórias do Liceu D. João III
No ano da graça de 1958 andava eu no segundo ano do Liceu. Já não passava pela humilhação do primeiro ano do “bicho, baixa a cabeça”, o que dava, a mim e aos meus colegas, um certo estatuto. Já todos conhecíamos de ginjeira Professores, Contínuos, recreios e corredores. A zona que nos estava destinada já não tinha quaisquer segredos. Ah, é claro, também conhecíamos o “Pulga”.
Numa bela manhã, o estatuto levou-nos a exagerar nas brincadeiras em frente à sala de aulas, pois corria a notícia de que o Dr. Balbino, o professor de Canto Coral, não iria dar aula. Foi um desassossego. Houve logo quem exagerasse em gritarias, arrepelos e encontrões. Os mais desenvoltos encontraram um modo mais fascinante de exteriorizarem as suas emoções – davam balanço para uma correria breve e rápida e, com elegância, deslizavam vários metros no pavimento lustroso do corredor.
De repente, a vozearia esmoreceu. Os movimentos escassearam. Um murmúrio ecoou pelo corredor. “O reitor! O reitor”! Foi então que vi o “Pulga”, que acabava de subir a escadaria que vinha do rés-do-chão e se aproximava a passos lentos da entrada da nossa sala. A miudagem encostou-se aos azulejos esbranquiçados da parede, silenciosa e expectante. O reitor terá topado, de longe, os deslizadores e aproximava-se, as mãos nos bolsos do casaco azul, a cará pálida, os beiços um pouco retorcidos, o cabelo grisalho repuxado, sem mácula, para a nuca.
– Os meninos não sabem que não devem fazer barulho?
perguntou, as palavras a rolarem-lhe dos lábios, como seixos pontiagudos prendendo-se nas consoantes.
O “Pulga” começou na fila do meu lado. Pelo canto do olho, vi-o extrair do bolso uma mão pequena e descorada como um pão malcozido, levá-la à boca e cuspinhar para a ponta dos dedos. De súbito, descreveu com o braço um arco curvo e rápido e ouvi o estrondeio da mão a embater na bochecha do primeiro companheiro da fila. Fiquei com o coração aos pinotes. Encostei a cabeça com força aos azulejos. Os joelhos tremiam-me num sacolejo incontrolável. O reitor avançava à estalada na minha direcção, numa cadência lerda e estralejada.
– Trás! Trás! Trás!
Vi-o aproximar-se de mim, perigosamente. Sentia a pele arrepiada. Um novelo na barriga. Um engulho plantado na garganta. No intervalo das estaladas apenas ouvia o meu próprio coração.
– Trás! Trás! Trás!
O “Pulga” cessou os castigos no meu colega do lado. Deu-me um soslaio enfadado. Virou costas lentamente, enquanto cuspinhava uma vez mais nos dedos. Iniciou o caminho de regresso. Exalei um suspiro transpirado. “Foi à tangente”, pensei. Só me desencostei da parede quando tive de entrar na sala de aula de substituição de Canto Coral, que iria ser dada pelo professor de Religião e Moral, o saudoso Padre Urbano.
Manuel Carlos F. Costa
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NOTA:
Lembro-me bem dele, um terror para a malta. Todos o temiam: alunos, contínuos, professores…
Todos, não. O dr. Ferreira da Costa, professor de História e de Geografia, fez-lhe frente algumas vezes, vi eu: uma vez, no fim de uma aula, já de porta aberta, com alguns alunos a rodeá-lo no estrado e junto à secretária, e outros aos saltos de carteira em carteira. O reitor, que ia a passar, perante tal balbúrdia, entrou e… quando ia para começar a distribui castanhada, o dr. Ferreira da Costa, afastou a malta que o encobria e
- Alto, sr. Reitor, que eu ainda aqui estou!
E o reitor, um tanto ou quanto encavado, deu meia volta e
- Desculpe, sr. Doutor, desculpe.
E foi-se.
Tive contactos com ele, o dr. Mário Guerra, depois do 25 barra quatro de setenta e quatro, quando, com problemas de visão, “abandonado” por muitos dos que lhe davam palmadinhas nas costas, ia ter comigo para desabafar. Não lhe devia favores nenhuns, ele, até aquela data nem devia saber que eu existia… Um dia, casualmente, apareceu no Banco acompanhado de um amigo comum, e dali em diante foi aparecendo. Uns tempos – uns anos - depois deixei de o ver.
Amigos, venham de lá mais “memórias” do Liceu, da universidade, da cidade, etc. Recordar é reviver.
Zé
