"Migração educacional”
"Migração educacional”
O mundo é feito de mudanças, umas benévolas e outras causadoras de perturbações, umas mais graves e outras menos; é a vida. O local, onde habitualmente, desde a minha chegada a Coimbra, costumamos levar as nossas cartas, e vamos por elas, pode sofrer algumas alterações. A Senhora Ambrosina vai deixar a Mercearia - Carvoaria uma vez que um filho se formou em Medicina, as duas filhas, em Enfermagem e outro está a acabar o Estágio para Professor, no Liceu D. João III; o marido, que é chefe dos "almeidas" da Câmara, acabou de se aposentar e vão regressar à sua aldeia da Beira; há tempos que me avisou que estava a aguardar uma proposta de trespasse da loja para uma senhora da terra dela que tem agora os filhos, também, na altura de virem estudar para Coimbra.
Leonardo, perdoa deter-me neste fenómeno social interessante; há pessoas da Beira, e outras de fora, que procuram vir para Coimbra, para os seus filhos terem a oportunidade de tirar os seus cursos e depois regressam a suas casas; para isso, procuram os mais variados meios financeiros para se instalarem e sobreviverem, durante os anos necessários, às vezes com imensas dificuldades; tomam pequenos negócios, desempenham profissões modestas, arrendam casas e subalugam quartos a Estudantes, etc. etc., será uma espécie de migração com fins educacionais.
A Senhora Ambrosina e Senhor José vão-se embora no início do próximo mês e já tenho saudades, sobretudo, do netinho, que está agora pelos seis anos crescidos tão perto de nós! Sempre que me via, logo tirava a carta das mãos da avó e ma vinha entregar, puxando por ela debaixo da camisa para que ninguém visse, uma espécie de cumplicidade tácita; é natural que não volte a encontrar naquele local, o meu amorzinho que, sempre que chegava de férias, vinha ao meu encontro para lhe entregar uma arrufada de Coimbra ou uma barriguinha de ovos moles e aqueles olhitos agradecidos brilhavam e logo fugia para trás do balcão, a mostrar à sua avó o presente da Menina; nem a Senhora volta a comer a melhor fruta para os dentes dela, que já não serão todos, os meus diospiros que lhe trazia nas Férias Grandes, fruta que o netinho, detestava porque lhe "arranhava" a garganta; nem o Senhor José Luís volta a beber "ginjinha com elas" que vinha escondida numa grande saca de retalhos que ela punha na minha mala, antes de ir para férias; contudo, podes ficar descansado e deixar a tua carta que logo irei por ela.
P.S. Afinal, a Senhora Ambrosina trespassou a loja, mas pediu à senhora que lá vai ficar que ajudasse os dois estudantes, que nos considerava como filhos seus, e que mantivesse aquela discrição que estas coisas merecem.
Ana
Extraído de “Cartas a Ana, de Leonardo”.
(We shall meet again in Coimbra)
Breve Ensaio sobre Epistolografia Amorosa
Coimbra
(Meados do século XX)
Ed.MinervaCoimbra-2007
Edgard Panão
