Monólogo do autista

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 Mas tanta!... tanta gente de olhares em mim espetados!... Porque sou diferente!?... Porque ando na vida para mim voltado, de todos os outros desencontrado!...

Autista!… é o que de mim dizem, e outros que sou de perturbações do espectro do autismo, e outros ainda mais refinados acrescentam e dizem que sou de perturbações neuropsiquiátricas, a que também chamam “disfunções do desenvolvimento do sistema nervoso central multifactoriais…”, assim dito e classificado com palavras eruditas, para não serem por outras compreendidas!...

Eu sou autista, e nada mais que isso!...

Para mim mesmo sempre virado!... Talvez inteligente, mas sempre ausente!... Com mutismo de linguagem, sem comunicação de relação, dos outros desconfiado e sempre desses afastado, de palrar de papagaio com inversões pronominais, de palavras muito literal, bem encostadinhas ao real, com uso de abundantes negativas, com o não em toda a ocasião, numa permanente ecolalia, como que possuído por uma obsessiva mania... Muito sensível aos estímulos, sejam eles os do sentir ou cheirar, de ouvir ou de ver, que até o simples tossir me faz tremer.

Gosto de estar só, em mim metido. Bem longe das confusões e das multidões, como abandonado. Detesto as concentrações, sempre em mim retirado, dos outros bem afastado, num silêncio continuado, como perdido e desorientado!...

Eu sou de todos os outros diferente!...

Como eu não há outro igual.

Autista, só em mim, como que em mim perdido, sempre dos outros desconfiado.

Detesto as companhias. Dos amigos fujo como deles tivesse medo. Sempre de mim mesmo inseguro. No mundo, quero que tudo seja sempre igual.

Os meus dedos sempre a mexer, como a procurar onde me agarrar.

De cabeça a balancear, para a frente e para trás, em tiques continuados, num maneirismo de rotinado, assim sou eu como máquina bem afinada.

Sempre de mim inseguro, quero saber se ainda existo, tanta atrapalhação que sempre em mim anda.

Em todo o sítio vejo escuridão… e não vejo onde me possa esconder. Falo só para mim, sem ninguém me dar atenção.

Nada na minha cabeça está parado, tudo anda num ir e voltar.

Todos me olham, de olhos em mim fixados. Nos olhares deles eu os vejo de mim desconfiados.

Ando de cá para lá e logo de lá para cá, sempre em passo apressado. Por isso tanta gente para mim olha com olhar incomodado. Quando os vejo em mim fixados, mais me sinto a eles desajustado.

E num riso condescendente, logo neles vejo o que de mim dizem, que o meu rir é inadequado, ou mesmo inapropriado, de um demente acabado.

Não gosto que com a mão me venham tocar. Longe deles me sinto melhor, sempre com vontade de me esconder, que ninguém  me venha incomodar!...

Nas minhas mãos nada está parado, tudo gira em movimentos miudinhos, com exagero organizados.

Se me dá para ser desarrumado, logo disso dizem ser de autismo isso sinal, a outros autistas ser igual.

Assim ando eu por outros classificado. Se sou inquieto e agitado, por isso me dão como autista pintado

Se me aguento quieto e sossegado, disso dizem ser do mundo ausente, um autista ao mundo indiferente.

Se repito o que digo e o que penso, logo de mim dizem que as repetições são assim como corrimões ao que me seguro e agarro nas minhas perturbações.

Hiperactivo ou sempre parado, sou aquilo que sou, autista!… diferente!… a mim sempre igual!...

Dizem de mim que não falo, que ando no mundo sempre calado. Mas se muito falo, disso sou criticado, e de mim dizem que digo sempre o mesmo, como fosse um CD gravado, como um eco que ao mundo vai e ao mesmo sítio volta, que por serem sons sempre sons iguais, a isso chamam de ecolalia.

Mas deixem-me dessa mania, se tudo de mim querem saber, para com sabedoria me classificar, deixem-me como sou assim ficar.

Não gosto de colo nem de afagos. E com isso a minha mãe sei que dei dias muito amargos!...

Dos outros nada quero ouvir. Como surdo ando eu, e como mudo no mundo estou. Neste mundo de palavras mentirosas, autista a mim sempre igual, prefiro estar calado a falar sem antes o que digo pensar!...

Sou um desadaptado, por isso me olham como indesejado!

Como um inútil, uma pensão mínima me é mandada, e essa como que chorada, como por favor dada.

Assim é tratado um autista, por outros avaliado!...

E é por isso que por meus pais para sempre sou carregado.

Dizem de mim que nada aprendo e que do que me ensinam pouco adianto.

Eu não os compreendo!...

Também eles a mim não me compreendem, mas sei que de mim dizem coisas que eles mesmos não entendem.

De mim falam com tanta sabedoria, quando eu só lhes peço que me aceitem com mais simpatia!...

Imagem: Getty Imagens

 

Manuel Miranda

miranda.manel@gmail.com