Dura Praxe

 

Dura Praxe

A certa altura da minha vida académica, quase toda vivida em Internato, ponderei sobre o meu passado próximo de aluno e apercebi-me, então, que por razões, mais de natureza andrógena evolutiva ao nível fisiológico, me estava a modificar no temperamento e a ficar, cada vez mais irrequieto e irreverente, intramuros; parecia-me não poder justificar a falta do respeito, que pudesse vir a ter, para com os meus professores e colegas, mesmo em circunstâncias fortuitas.

Procurei, então, informar-me, junto de colegas externos, sobre a existência de algum Colégio, em Coimbra, para alunos externos cujo diretor tivesse fama de duro e justo; pensei que, assim como os santos medievais, usavam cilícios, debaixo das vestes, para dominarem os "desejos da carne", eu, de certo modo e comparativamente, poderia auto-conter o meu comportamento, um tanto descompensado, com tal diretor; logo me indicaram, fui parar a um colégio com um diretor daquele tipo.
Este, assim que o vi, até me pareceu bom homem; era uma pessoa franzina, delicada, e pensei que deveria ser de "sangue azul", porque era de falas tão duras, mas ao mesmo tempo tão finas, de sua natureza, e não me pareceu cínico; no Colégio não haveria gente cínica, só gente dura, pensei. Olhando-me, o Diretor disse:
Olha rapaz, a tua fama precede-te e, por isso, vais já para a turma, cujo diretor do ciclo, é o senhor diretor Pedro Batalha; vais dar-te bem, já que vens para aqui, voluntariamente.
No primeiro dia de aulas, no corredor, ia chocando com um senhor corpulento, aí com o seu metro e noventa e dois de altura; olhei-o, a partir dos pés para a cabeça, e vi que tinha os olhos fundos, brilhantes, as arcadas supraciliares anormais, como que aumentadas por espessas sobrancelhas e pestanas negras; tinha uma espessa cabeleira farta, quase a chegar-lhe aos olhos, o bigode, era um bigode do tipo "escova de aço" e os dentes, tendo por fundo a sua cor de pele parda, separados por finíssimas ranhuras, eram tão brancos, quanto nós possamos imaginar a alva brancura; os lábios eram grossos, a barba hirsuta, as orelhas grandes, mas escondidas; parecia-me um califa, olhei-lhe de novo para os pés e tinha para aí o número quarenta e sete de sapatos de bico de pato; assustadora foi esta minha entrada!
Estávamos à espera do diretor do ciclo e eis que se ouve uma voz: "silêncio!" vem, aí o Abderraman II, era o Dr. Pedro Batalha; fiquei logo a saber que setenta e cinco dos problemas com as turmas dele, não chegavam ao diretor, pelas razões seguintes: 1.ª, o medo do seu especto,25%; 2.ª,o medo do seu vozeirão,25%; e os restantes 25%, um misto de medo e consideração, como passo a ilustrar. lamas ter a primeira aula de Filosofia e todos tínhamos de levar o livro adotado, que era o de Malapert; diziam-nos que a nova professora, vinda de Lisboa, era muito rigorosa e ia marcar falta de material logo no primeiro dia, para causar as primeiras impressões, no seu relacionamento rígido entre a professora e os alunos; esperando nós já esta reação da parte dela, estávamos todos com os pés em cima das carteiras e fazíamos muito barulho. Quando a professora entrou, reagiu interiormente, vimo-lo pela sua face, mas manteve-se calma, até chegar à sua cadeira, na secretária; recompôs-se e disse-nos, com ar mais profissional: "Ponham-se todos na posição normal"! Nós, calmamente, saímos das carteiras e nos intervalos destas, pusemo-nos de "quatro patas", no chão, na posição natural dos quadrúpedes. A senhora saiu furiosa da sala e foi logo, naturalmente, direita ao AbderramanII; ficámos todos muito tensos, com o que se seguiria entre eles. Ficámos, então, a partir daí, mas foi a admirar mais ainda, o Dr. Pedro Batalha; ele, com bonomia e respeito, terá explicado à senhora professora, que cursou em Lisboa, que falar em Coimbra, em "posição normal" desencadeava uma espécie de reflexo condicionado nos alunos, ainda na categoria "subcanina" de "bichos", devido a esta frase ser, obrigatoriamente, utilizada na praxe académica, para os pôr na ordem.
A senhora Professora foi, a partir desta peripécia, o tipo de professora que todos os alunos gostam de ter; firme, a ensinar bem, a avaliar bem, a compreender-nos e a amar-nos como pessoas, sem ressentimento, e nem nos "marcar" pelas atitudes irreverentes que, às vezes, os professores não aceitam, porque não entendem os seus alunos e os seus problemas, dentro e fora da sala de aulas!
Abderraman II, ou corno, também, era conhecido, o Pedro, o Grande, ou então, por ter o apelido de Batalha, também, lhe chamavam ,o Grande Guerra, ficou no coração de todos nós e, hoje, temos saudades do Professor Batalha! Abderraman II nasceu assim com uma cara errada; aquela sua carantonha parecia uma caricatura do mal que nele não havia; mas, pelo contrário, mesmo assim, era de um feio remediável, porque era dono de uma imensa bondade natural, bom senso e justiça solidária para os alunos que o consideravam um indivíduo duma "Dinastia de um homem só".
Como guardamos saudades dos nossos professores daquele colégio, inclusivamente, daquela senhora professora encarregada de nos ensinar Filosofia pelo livro de Malapret, que passara a ex- fera! Porém, sempre tive dificuldade de incorporar bem a companhia de alguns dos alunos que vinham ali parar; geralmente, estavam no Colégio por serem maus alunos, indisciplinados, com fraco aproveitamento no ensino oficial, etc.; alguns, até costumavam ser rotulados, agressivamente, de "a fina flor do lixo pedagógico".
Mas cheguei ao fim do ano com êxito nos exames, ao contrário, de muitos daqueles que neles se fazia grande “morticínio” sancionatório, para serem propostos para os exames oficiais. Distinguiam-se nesta tarefa, o diretor do ciclo, o Dr. Benigno Paciência, homem de pouca roupa, que era o resiliente vagomestre dos castigos corporais; a Drª. Piedade Manso ( só de nome), “a Sempre Firme”, o Dr. Fradinho, conhecido por “O Merencório”, porque, quando arreava nos alunos punha a sua cara de belfo muito triste e de beiço caído, simulando pena, e outros, cujos curiosos apelidos não podiam ser mais enganosos ou expressivos para quem os conhecesse!
Também, fui chamado, apenas, uma vez, àquele diretor de ciclo, o Dr. “Pouca Roupa”, para servir de testemunha contra um aluno, que no corredor, estando professor de costas, eu vi-o, aproximar-se por trás e, curvando-se, lhe terá segredado baixinho: O que é que queres ser, quando fores grande? Eu não tinha ouvido nada! Foi a minha resposta à pergunta se eu tinha ouvido o aluno a berrar-lhe ao ouvido. O tempo marcha !
Extraído de “Cartas a Ana, de Leonardo”.
(We shall meet again in Coimbra)
Breve Ensaio sobre Epistolografia Amorosa
Edgard Panão
Coimbra
(Meados do século XX)
Ed.MinervaCoimbra-2007