Há deuses que, também, morrem!
Há deuses que, também, morrem!
Quando as sociedades humanas desaparecerem, definitivamente, da terra, os respetivos deuses, também, desaparecerão. Isto aconteceu, muito antes e depois, com os deuses egípcios, persas, gregos, deuses romanos, etc., que, com nomes diferentes, tinham cultos e crenças semelhantes e daí identificáveis como sendo os mesmos, nas citadas sociedades passadas, embora com alguns erros de generalização, como no caso de Dionísio e Baco.
O deus grego Dionísio era o deus da vinha, da renovação anual da natureza e cujo produto, o vinho, alegrava o coração do homem, inebriava a imaginação dos poetas, artistas, etc., dando origem ao elevado nível de euforia, contida dentro dos limites da luxúria espiritual de viver a criação artística, etc..
O romano Baco era tão, somente, o deus do vinho cujo uso se destinava a exagerar a gula e levar à luxúria carnal, gerando estados de autodestruição e violação do equilíbrio natural dos homens e das mulheres, pesasse o aspeto cultural proporcionado ,durante as refeições, pela presença do anagnosta da casa!(Escravo romano encarregado de ler,em voz alta,durante os banquetes do seu senhor). Eram efeitos deste culto, as bacanais que brutalizavam e não tinham muito de parecido com o culto do Dionísio.
Todas as sociedades têm,pois, pontos comuns traduzidos em algumas semelhanças, como acontece com as crenças corporizadas na fé, em deuses comparáveis, como vimos, a partir de algumas semelhanças de seus cultos.
Neste sentido. pode verificar-se pela história que, quando determinadas sociedades desaparecem, os seus Deuses, deixando de ser objeto de culto e de fé, também, desapareciam.
Neste modo, poder-se-á perguntar, com alguma coerência:
Os deuses também morrem?
Admitamos que algum dia, um cataclismo cósmico, eliminava todos os homens da face da terra, exceto uma pequena sociedade remota, em estado primitivo, cuja religião sendo, também primitiva, fosse preservada; quer dizer, se as outras sociedades desaparecessem, com elas as suas religiões e os respetivos deuses, também, desapareceriam; é, então, que dá para pensar se a partir daquela hipotética sociedade primitiva, não iriam aparecendo, ao longo dos séculos, deuses novos por força da evolução sociológica da crença primitiva.
Será lícito pensar que religiões quando existem são verdadeiras, mas deixam de existir porque deixam de ser úteis para as futuras sociedades de advenientes; pelo que a História nos ensina, novos crentes não se dispensam de ir dando durante séculos novas formas de manifestação ao fenómeno religioso, isto é, modificar a crença num Ser superior que se costuma designar por Deus.
Há, então, lugar a pensar por que razão é que as religiões podem aparecer e desaparecer, isto é, “padecem de finitude” e, apesar deste fenómeno, não há hiatos religiosos?
Parece ressaltar, de imediato, a hipótese de que haverá, com referimos, religiões verdadeiras enquanto úteis e passam a falsas quando inúteis; contudo, todas existem porem períodos históricos, para umas mais longos do que para outras, o que pode levar à explicação de que o homem é um ser carente de segurança, em vida e para o futuro “postmortem”; e é por tal insuficiência natural, que a humanidade está interessada pelo fenómeno religioso, isto é, por um Deus que a salve das eventuais agonias neste e no outro Mundo!
Mas tal hipótese só poderia confirmar-se se desaparecesse o medo daquele futuro tido como o fundamento essencial das religiões e com ele, também, desaparecesse o fenómeno religioso; o que seria, obviamente, absurdo para aqueles que pensam que um Deus continuaria a existir porque foi Ele que criou o homem! No entanto, esta Fé é contrariada, frontalmente, por conceções expressas, embora muito restritas, de que a primeira invenção do Homem foi Deus.
Comentário, na sala de aula:
Uma da senhora, entendida em “subtilezas das Cosmogonias e das Teodiceias” pediu para falar e falou assim:
A “finitude religiosa” parece nem sequer ser imaginável para certas religiões, porque algumas são organizações dirigidas por uma autoridade estatal máxima cujo chefe só é substituído por força da lei da morte e cada sucessor mantém, por outorga e com todas as garantias, a vitaliciedade que tende a garantir a continuidade de seu “corpus religiosum”
Edgard Panão
( in, Os Convencidos da Vida. Sum, ergo cogito. Ed.MinervaCoimbra 2010)
