Os Arraiais
Os Arraiais
Na segunda feira seguinte, tínhamos de levar uma redação que o nosso Professor só a aceitava, como normal, se tivesse uma folha do caderno cheia ou, pelo menos, trinta linhas bem escritas. Era sobre festejos populares e, por isso, o nosso Professor aconselhou-nos a informarmo-nos com os nossos pais, ou junto de outra pessoa que quiséssemos, para nos dizerem o significado dos festejos, de várias localidades; adiantou que decorriam, normalmente, de ano em ano, eram dias diferentes e felizes para as populações que, enquanto durassem, comiam melhor e, habitualmente, folgavam e bailavam à sua maneira. Combinei com mais dois colegas, pedir ajuda a um homem bom, previsível de mais, e muito lento a fazer a sua narrativa; era, como dizia o povo, bom para "ir buscar a morte", por ser muito vagaroso; era conhecido por " O Vamos Com Deus". Fora operário durante vários anos, num barreiro para extração de material de uma fábrica de tijolos, e, nas horas de descanso, gostava de tocar bombardino na nossa banda; mas um dia, queixou-se que lhe faltava o fôlego, devido a ter as guelras entupidas, queria ele dizer, o pó arruinara-lhe os pulmões; agora, andava na banda, era o porta--bandeira, para poder girar como antigamente, pelas festas e arraiais nos territórios, à volta da nossa freguesia; pedimos-lhe que contasse sobre estas festas o que mais gostasse, para nos ajudar a fazer a redação dessa segunda-feira; Então, começou assim:
— Vou, contar-vos sobre o Arraial de Sanfipo, do qual tenho as melhores recordações para o evocar, por ser um excelente arraial e era aqui perto. Sanfipo, diz-se que é a abreviatura popular do nome de S. Filipe, um Santo da Igreja, segundo a lenda, muito resumida e menos verdadeira, foi mártir, porque os trabalhadores da sua paróquia, ficaram revoltados com os patrões que davam o melhor vinho para o Passal, e lhes davam, a eles, só "zurrapa"; um dia, embriagados, tentaram assaltar a adega para tirar o vinho que estava nos potes ; então, alguém se pôs à frente, para eles não cometerem o crime de beberem aquele vinho, mas, infelizmente, caiu varado com um zagalote para lobos, saído da escopeta roubada ao patrão por um infeliz que a levava consigo, só para meter medo aos amigos do Abade que aparecessem, e nem sequer sabia manejá-la; daí a tragédia em que quem morreu foi o sacristão, ter virado lenda sobre S. Filipe, posta a correr no povo, talvez pelos anti-cristos liberais ou pelos estupores dos maçónicos daqueles tempos, A grande devoção ao Santo estava espalhada por muitos lugares em redor; por isso, vinham vários padres, de fora, para fazer uma grande procissão anual que saia a horas calmas da manhã, para não haver perturbações, durante o percurso, ladeado por gentes estranhas, e desconhecidas umas das outras, com os seus feitios, o que podia constituir algum perigo, enquanto a procissão não recolhesse. Abria-se depois um grande arraial, no imenso largo da Capela, preparado de véspera com bandeiras e postes cheios de luz e papéis coloridos; despidos os anjinhos, depois da procissão, os pais e toda a família, procuravam os melhores lugares para comer o farnel, bem recheado de carnes e doces e acompanhado por bons vinhos da região. O passo seguinte era dormir uma boa sesta, mas só os mais velhos seguiam esse hábito; os mais novos, normalmente, começavam a interessar-se que uma música lhe desse a oportunidade para então começar o baile de rascuvanço, que quer dizer, era um baile em que toda a gente podia dançar, grandes, pequenos, estranhos e nativos; contudo, estas diferenças de pessoas e feitios, muitas vezes davam direito a arraiais de pancadaria que não interessa para as vossas redações. . Fomos para casa fazer as nossas redações; ao outro dia, o nosso Professor gostou, mas achou-a longas demais e torceu o nariz quando leu os pormenores escusados(dizia ele ) que resumimos daquela lenda.
Edgard Panão
( in, Trautos de Miranda Ed. MinervaCoimbra)
