O CENTENÁRIO DA SEBENTA.

 

Rodrigues Costa, um incansável investigador e divulgador da História de Coimbra, tem um imperdível "blogue" intitulado A CERCA DE COIMBRA. Com a devida vénia publico aqui um texto seu dedicado às comemorações estudantis do fim do século XIX, sobre a aventura que então foi levada a cabo, em Coimbra, e que Joaquim Martins Teixeira de Carvalho, 10 anos depois, passaria a escrito.

Aqui se relata a participação do meu bisavô, o escultor JOÃO MACHADO, e eu, com orgulho e vaidade :) , não posso deixar passar em claro a oportunidade, para o evocar.

Vai também a foto do Monumento à Sebenta, que é o busto de Alois Senefelder, inventor da litografia.

E passo ao texto de Rodrigues Costa:

"Mário Torres tem vindo a publicar na sua página do FB uma excelente recolha de imagens e de textos relacionados com o “Centenário da Sebenta”.

O “Centenário da Sebenta”, festa académica acontecida em Coimbra nos dias 28, 29 e 30 de abril de 1899, teve por objetivo fazer uma crítica – violenta – ao principal instrumento de ensino então utlizado, a sebenta litografada.

O programa dos festejos consubstanciava uma paródia aos muitos centenários cívicos, todos eles imbuídos de forte matriz política, que, nos últimos anos do século XIX, vinham acontecendo em Lisboa e no Porto.

O Professor Doutor Joaquim Martins Teixeira de Carvalho – conhecido na cidade por Quim Martins – na altura em que passavam dez anos sobre a referida festividade académica relembrou-a, relatando no “seu” jornal Resistencia, órgão do Partido Republicano de Coimbra, que dirigiu entre 1895 e 1907, um episódio certamente desconhecido de muitos e que então ocorrera.

Trata-se de uma verdadeira obra-prima do espírito académico de então, para a qual fui alertado por uma Amiga que conhece bem este período, quando com ela comentei a recolha que Mário Torres vem meritoriamente fazendo.

É essa verdadeira pérola coimbrã que aqui se divulga.

"O monumento da Sebenta.

João Machado – esculptor

Dr. Quim Martins – architecto

E’ historico.

Ha dez annos.

Eu descia para a Baixa ao anoitecer.

Da escuridão do arco de Almedina avançou para mim o Xandre, esbaforido, a face da pallidez das sombras heroicas dos Elyseos...

– Vou ter com o Gonçalves para elle me fazer o monumento da 'Sebenta ...

– Para quando?

– D'aqui a quatro dias…

– Estás doido! Não faz. Agora é que tu pensas nisso...

– Tenho tido mais que fazer. Eu...

– Já sei. E's um homem arrombado

– Você, Quim, é que podia…

– Eu?!

– E' uma coisa simples. Quero um monumento todo de cebo, e em cima, de cebo tambem, um busto de Senefelder, inventor da lithographia, e portanto pae da Sebenta. Você ri-se? Não foi elle quem inventou?...

– Foi.

– Bem. Julguei que era asneira ...

– A asneira está em tu quereres um monumento de cebo.

– A ideia não é boa?

– E', mas deve ser feito em gesso, a fingir cebo…

– Como quizer. Mas encarregue-se d'isso, doutor! Salve-me. E'· salvar-me a honra, é mais que salvar-me a vida…

– Bem, pois então vamos lá a salvar essa honra D'esta vez não é preciso attestado?...

– O' doutor, eu nunca abusei…

– Deuses immortaes! Quem tal suspeita?...

– Bem! Fico descançado. Não torno a pensar mais nisso. Gaste o que quizer. Paga-se tudo!...

No dia immediato, fui ter com o João Machado, levando já 'um mau retrato de Senefelder, e disse-lhe no que me metera.:

Ele poz-se a rir, e a contar os dias, e as horas de: trabalho pelos dedos.

Havia apenas tres dias, contando o da inauguração…

– Vamos a isso! disse elle, continuando a rir.

Chamou um aprendiz e mandou-lhe buscar carvão, papel, barro e gesso, comentando:

– Vem tudo de uma vez! Não ha tempo a perder. Ainda áhi estás? Corre. Avia-te!

Eu fui aos meus doentes. Voltei quatro horas' depois. João Machado tinha já o busto desenhado a carvão, numa linha de um desenho tão fino que eu perguntei-lhe:

– Foi o João Machado que fez isto?

– E' boa! Já o Sr. Pinto [Arquiteto Silva Pinto] se admirou tambem. Em pouco me têem os senhores…

– E' que está muito bom, O que aqui está desenhado não é facil.

– E isto?...

Voltei-me e dei com João Machado que, a rir, modelava o 'busto de Senefelder, já adiantado.

– Palavra que está muito bom!

– Diga agora que aqui não ha talento!

– Bom! Se o João 'Machado está alegre, o successo da obra é certo.

– Já viu? Tenho ali modelo vivo.

– Aonde?

– Ali! Na ratoeira…

– Um rato!...

– Pois! E' que ha de roer a sebenta e o cebo. Estudo ao natural, trabalho consciencioso ...

– Boa vae ella! Ha que tempo o não vejo tão satisfeito. Bom! Vou ver um doente e volto...

Fez-se o busto, e lá ficou como emblema decorativo o ratito preto, de

olhos tão vivos, que nunca mais tornei a ver…

João Machado, que me sabia afadigado, foi elle mesmo collocá-lo no

Largo do Museu, de noite.

Eu, nem quiz por lá passar ao saír do teatro e fui deitar-me a dormir algumas horas.

No dia irnmediato, levantei-me, fui ver, e desci a correr á officina do João Machado. Ainda lá não estava.

Entrava d'ahi a pouco, muito enroscado no casaco, porque a manhã estava fria.

– Fui ver a obra, disse eu.

– Passei lá quasi a noite toda.

– Obrigado. Mas é necessario irmos lá, senão perde-se o valor da sua obra.

– Não posso! E' dia de féria. Tenha paciencia. sr. doutor ...

- Não póde, não póde! Acabou-se...

– Está-se a zangar. Eu não queria, mas não posso. Emfim, vá lá. Vou! Ao meio dia...

– Qual meio dia, nem qual carapuça! Já! Já! E leve homens, e madeira, e aboboras e cebolas...

– Seja! Vamos lá para casa do Benjamim Ventura.

Fomos. Elle poz-se a rir, e foi-nos ao quintal buscar uma couve

magnífica para o monumento. Eu pedi mais tres e um cabo de cebolas.

E lá foi a caravana a rir.

Chegámos ao largo do museu.

O Seneffelder que estava a olhar para o museu, voltou-se para o Largo da Feira, a entrada do largo.

Confiscou-se um carro de pedra que passava para uma obra e despejou-se para fazer a rocaille do jardim que havia de rodear o monumento.

A' Feira mandei comprar um alguidar verde para fazer o lago decorativo.

Os empregados -do museu riam, emquanto eu e o João Machado, muito serios, dispunhamos, 'em 'festões decorativos, cabos de cebolas, botas velhas, hortaliças varias, abanos, e laranjas.

– Francisco, disse eu, chamando pelo meu velho servente de anatomia, faz-me um favor!

– Ora essa. Sr. Doutor!...

– Vae ao mercado e compra-me um cisne, para o lago.

– O' sr. Dr., mas no mercado não ha cisnes a vender...

– Compra-me um pato marreco…

– Lá isso ha...

- Então que é mais o pato que o cisne? O cisne é um pato, mais janota, de pescoço mais alto. Mais nada! Traga lá o cisne!

O Francisco foi-se a rir. e a encolher os hombros, comprar o pato.

 

– João Machado, vamos ás legendas. Ahi na frente escreva: Ao Mousinho da Sebenta a mucidade agardecida, Mocidade com u já se vê.

– Isso não sr. dr., eu não escrevo isso

– Pois escrevo eu. Dê cá o pincel. E vae hagardecida, com h, pois então!...

O monumento ficou obra acabada

Sobre a piramide, cujas arestas cortadas eram decoradas com os rolos lithographicos a escorrer de tinta, levantava-se branco. de cebo, a

desfazer-se, o bom Senefelder que começara a vida a gravar música e por isso estava logicamente predestinado para descobrir o modo de reproduzir a Sebenta.

Do fundo do pedestal, adeantando medrosamente o focinho. olhava ironicamente para Senefelder o rato: que o havia de comer.

Pelo pedestal corriam com intenção decorativa as cebollas, as botas, as coisas mais estranhas que João Machado pintava de oxidações artisticas, dando-lhes a côr dos bronzes monumentaes

Não se ouviam senão murmurios de admiração.

Eu e João Machado, muito sujos, muito pingados de tinta, tinhamos o ar descuidado dos immortaes.

Alguem fez notar que era uma pena que dessem cabo de tão bella obra.

– Quem?

– Ora sr. dr., alguem por inveja. Elle anda por ahi cada um...

– O melhor era ir buscar um policia.

– Um policia?...

– Se o sr. dr. pedisse na esquadra, lá davam-lhe um...

– Vá, sr. dr., vá buscar um policia...

Eu fui á esquadra da Feira.

D'ahi a pouco entrava eu no largo do museu com um policia.

Ao fundo apparecia então o Francisco com o pato...

Uns gostavam mais do pato, outros do policia.

Eu não escolhera. Trouxera o que me deram. '

Um duplo triumpho.

Em breve nadava o pato no alguidar vidrado, que na frente do monumento simulava o lago simbolico em que melancholicamente se devia mirar o rosto pensativo de Seuefelder.

Ao pescoço sustentava o chocalhinho, emblema da commissão das "festas.

– Um pato da cornmissão?! dizia a rir um dos enthusiastas que chegava.

– Que queres?! Na commissão não poude encontrar-se um cisne!...

E mentalmente pedi desculpa ao Lopes Vieira da mentira vil que dizia para fazer um dito de espírito.

Já não era a primeira.

E tinha eu então menos dez anos…

Centenário da Sebenta. Monumento 02a.jpg

Inauguração do busto de Alois Senefelder, inventor da litografia. Centenário da Sebenta, sábado, 29 de Abril de 1899, às 13h00

 

– Parabéns, doutor! Voltei-me era uma senhora, minha doente, que me estendia a mão. – V. ex.ª gosta? ,

– Muito. Está um apetite…

E' de notar que a pobre senhora padecia do estomago.

Um apetite!.... Estaria curada'?

O' força dominadora da arte!...

T.C.

Resistencia, 1405, Coimbra, 1909.04.30.".

 

Centenario-da-Sebenta-Pedro-Dias.jpg

Pedro Dias