O MEGAPARQUE E O FANTASMA REENCARNADO DO iPARQUE

1 O MEGAPARQUE E O FANTASMA REENCARNADO DO iPARQUE1

 

No jornalismo económico regional, há números que servem para informar e números que servem para anestesiar a memória coletiva. O recente anúncio conjunto das Câmaras Municipais de Cantanhede, Coimbra e Mealhada pertence, com distinção olímpica, à segunda categoria.

Os três municípios decidiram fundir horizontes para projetar uma gigantesca área empresarial com capacidade até 578 hectares, prometendo atrair investimento industrial de grande escala e colocar a Beira Litoral na vanguarda do PIB nacional.

Fazendo um levantamento dos factos frios deste consórcio, a escala do projeto é monumental, estamos a falar de uma mancha de betão equivalente a quase 600 campos de futebol. O argumento político é o do costume, argumentando a proximidade milagrosa dos eixos ferroviários, o "emprego qualificado" e a fixação de riqueza. É o clássico "sonho do Silicon Valley da Beira Litoral", um fetiche que os autarcas da região ressuscitam ciclicamente sempre que é preciso desviar as atenções do comércio tradicional que definha na Baixa. 

Contudo, para qualquer jornalista com mais de dois dias de memória factual, este anúncio provoca um valente déjà vu e obriga-nos a cruzar a propaganda de hoje com os esqueletos de ontem. É impossível olhar para esta promessa de 578 hectares sem evocar o nome do maior monumento à ineficácia imobiliária de Coimbra: o Coimbra iParque, em Antanhol.

Inaugurado com pompa, circunstância e discursos sobre a "indústria do futuro" lá pelos idos de 2010, o iParque de Coimbra transformou-se num caso de estudo de como enterrar dinheiro público e fundos comunitários num deserto de lotes vazios. O projeto demorou mais de uma década de estagnação e prejuízos avultados apenas para conseguir ocupar as parcelas da sua primeira fase. Anos a fio a ver erva crescer no asfalto e a acumular passivos financeiros enquanto as empresas preferiam instalar-se noutras paragens com menos burocracia e melhores acessos.

Recentemente, a autarquia teve de injetar uma expansão de 9 milhões de euros para tentar dar o balão de oxigénio que o parque de ciência e tecnologia há tanto tempo pedia. Ou seja, Coimbra ainda não conseguiu digerir, lotar e rentabilizar a sua própria e modesta zona tecnológica de Antanhol, mas o executivo já se junta aos vizinhos para prometer um megaparque que é quase seis vezes maior.

A engenharia política desta nova aliança intermunicipal é brilhante na teoria, mas assustadora na prática. Se para gerir os poucos hectares do iParque foi precisa uma odisseia de mais de 10 anos de arrastamento e resgates financeiros, quantos séculos serão necessários para preencher 578 hectares divididos por três quintas autárquicas diferentes?

Enquanto os presidentes de Câmara contam os hectares no papel e exibem gráficos reluzentes de sustentabilidade industrial, o cidadão de Coimbra fita o horizonte com justa desconfiança. O betão mudou de escala, a promessa mudou de consórcio, mas o risco de estarmos perante mais uma fatia de território rústico condenada a transformar-se num armazém de promessas por cumprir... essa ilusão continua, infelizmente, intacta.

 

António Ferreira das Neve

25-09-2026