O pirolito
O pirolito
Já pouca gente se lembrará disto, mas é bem verdade: em tempos idos, muito idos, o prémio de jogo dos atletas da Académica, ganhassem, perdessem ou empatassem, era um pirolito.
Velhinho Santa Cruz, quantas recordações! Do campo de basquetebol, do tanque-piscina alfobre de campeões, e, lógico, do campo de futebol em que, aos domingos,
desde as nove horas da manhã, quando não das oito, eu e muitos, muito outros, assistíamos em desafios que se sucediam até às tantas, apenas intervalados pela hora de almoço, sagrada como convinha.
Aos dias de semana também havia jogatanas, e não só de futebol, pois, como menos elementos, também se “disputavam” na bancada…
Era o tempo do sr. José e do Belmiro: o primeiro coordenava tudo; e ao Belmiro cabia a marcação do campo e o tratamento dos equipamentos.
O sr. José fazia bom negócio. A malta do D. João III que gazeteava, a que tinha “furos”, e aquela a que os professores brindavam com ausências, iam entreter-se para o pelado de Santa Cruz, alugando uma das bolas que o sr. José dispunha para o efeito. E se eram jogatanas renhidas!
No fim, os mais abonados também não dispensavam o seu pirolitozito de duplo gozo: do conteúdo, e do empurrar a bolinha com o dedo enfiado no gargalo da garrafa, uma espécie de desvirginização do recipiente….
O pirolito era um refrigerante popular, barato, com implantação nacional em tempos da outra senhora, concorrente da laranjada. Era agridoce, sabia a limão, e, além do preço, valia sobretudo pelo engenhoso processo de engarrafamento: um berlinde de vidro vedava hermeticamente o acesso ao conteúdo da garrafa, cilíndrica, com um estrangulamento interno no cónico gargalo, dotado de uma anilha de borracha em que o berlinde se encaixava, aderindo firmemente por força da pressão do gás carbónico injectado no líquido. Era preciso baixar a bolinha para beber o conteúdo retido. Como nem toda agente tinha força no dedo, havia um pauzinho de madeira, apropriado para o efeito, que ajudava na “circunstância”
Este curioso processo constituía a principal originalidade do pirolito, mas acabou por condená-lo à morte.
Na natureza nada se perde, tudo se transforma, diz-se. Mas, caramba. Não sei bem em que se “transformou” o pirolito, pois nada o consegue substituir.
