O Sorriso das Pétalas Amarelas – Um Ano Novo

 

É recorrente, no início de cada ano vive-se o desejo de no final do ano tudo não continuar a ser, apenas, desejo. Como se o destino nos tivesse deixado ao abandono - um género de reprimenda por alguma «patifaria» que não se cometeu. Como se fosse sina. Como se fosse represália (que já se sentiu vezes sem conta), qual fado, mas que se insiste em pôr a girar recorrendo a uma velhinha grafonola, porque não se é suficientemente assertivo para proclamar um definitivo «Basta!».

Os anos não deveriam insistir em ser assim sempre constantes, como se fossem trovões direccionados com propósito à sanidade da gente, acompanhados de dilúvios que se derramam em vagas quase regulares, que nos engripam a expectativa de termos direito a viver tempos preferíveis. Vidas melhores e sãs e completas e recheadas.

Desde que, com justeza, não consigo ter pena de quem foi ou está para ser condenado por mal «fazer», julgando-se intocável. Mas consigo dar um abraço retribuindo outro abraço que alegre ambas as partes.

É ano novo. É tempo de sorrisos despretensiosos (ah!, a esperança) trocados entre quem se estima, de exultações genuínas partilhadas com quem nos merece merecendo-nos, de tentar andar-se arredado de «lugares-comuns», ou evitá-los, ou fugir deles - mesmo que classifiquemos alguns como espaços que representam ideais de gente com seriedade e ética duvidosa. Que promete e não cumpre. Que está ausente fingindo-se presente. Que aufere bem, exigindo que se assalarie medianamente quem efectivamente cumpre e está presente e trabalha sem artifícios. E coisa e tal.

Até aqui, a «sem-vergonhice» de alguns tem resultado com resultados que esporeiam o asco de quem se sente enganado. Talvez, no novo ano, algo se altere. Talvez se comece a combater de forma séria a soberba, a avareza, a gula e a preguiça de uns quantos. E, talvez, quem isso combata, desarmado, cresça e se multiplique. Que assim seja.

Feliz Ano Novo.

 

Luís Gil Torga