Orgão Ibérico

 história do desenvolvimento do órgão em Portugal confunde-se naturalmente com a história do desenvolvimento do órgão na Península Ibérica, a qual por sua vez constitui um capítulo autónomo da organaria e da literatura organística europeia. Nas diversas escolas de organaria europeia, costuma pois individualizar-se o órgão ibérico, com as suas particularidades de construção e o seu reportório próprio.

 

Em Portugal, a primeira referência ao órgão data de 1453, sendo de 1536 a “Arte novamente inventada para aprender a tanger”, de Gonçalo de Baena, que constitui o primeiro livro de música impresso em Portugal.

 

Os órgãos renascentistas em Portugal e Espanha não eram muito diferentes dos seus congéneres italianos, franceses ou ingleses, tendo em geral um só teclado (também designado manual) baseado essencialmente na família de tubos conhecida por principal (correspondente em geral a tubos abertos feitos de metal), embora pudesse dispor também dos tubos fechados (de madeira) designados por flautas e também, eventualmente, de alguns registos de palheta.

 

Alguns destes órgãos possuíam também uns pedais auxiliares – por vezes designados contras – accionados pelos pés e que permitiam accionar os tubos da zona mais grave (cobrindo tipicamente uma oitava). Estes pedais não se confundem com a ulterior pedaleira dos órgãos alemães e franceses, pois não constituem um teclado autónomo controlado pelos pés, mas tão só um apoio para as mãos em certos momentos.

 

Nalguns dos órgãos mais antigos está já presente um mecanismo de construção que permite aumentar a diversidade tímbrica: o chamado teclado partido ou meio-registo, em que se associa a cada metade do teclado um conjunto diferente de registos, o que permite a realização de solos, seja na mão esquerda, seja na mão direita. Tipicamente, o teclado parte entre as notas dó3 e dó#3. Os órgãos mais antigos dispõem quer de registos inteiros, quer de registos partidos (o exemplo paradigmático em Portugal é talvez o órgão de Santa Cruz de Coimbra, recentemente restaurado, cuja base é um registo principal designado Flautado de 24, cujos tubos foram construídos por Heitor Lobo em 1559).

 

Contudo, a técnica da construção em meio-registo viria posteriormente a ser bastante amplificada nos órgãos ibéricos, conduzindo a uma forma autónoma de reportório conhecida por peças de meio-registo (tipicamente na característica forma do tento, assente em contraponto imitativo). Por vezes, sobretudo à medida que o órgão ibérico se complexifica, ao longo do século XVII, todo o órgão é construído em meio-registo, o que não raro gera algum incómodo em organistas menos experimentados em órgãos ibéricos.

 

Um dos desenvolvimentos mais significativos e idiossincráticos do órgão ibérico, datado da segunda metade do século XVII, consistiu na introdução de registos de palheta em tubos colocados horizontalmente na fachada do órgão (na posição dita de chamada). Terá sido o organeiro basco Joseph Echevarria o primeiro a utilizar esta técnica no órgão que construiu para o Convento de San Diego em Alcalá de Henares, em 1659. Esta novidade espalhou-se rapidamente a toda a península, e o uso de palhetas em chamada transformou-se numa das mais idiomáticas expressões do órgão ibérico, que pode ser abundantemente utilizada nas Batalhas. Este repertório especialíssimo tem por origem a célebre chansson “La Guerre”do compositor franco-flamengo Clement Janequin, onde se descreve de forma onomatopaica o fragor da Batalha de Marignan que opôs Francisco I aos milaneses. Esta chansson impressionou vivamente os seus contemporâneos e em particular os compositores portugueses e espanhóis, que criaram a partir dela o género próprio da Batalha para órgão, representando de forma sonora a batalha mística entre o Bem e o Mal.

 

A ascensão em Dezembro de 1706 de D. João V marca uma profunda alteração na história da música portuguesa. No âmbito do contexto da sua acção política, este monarca impôs a importação dos modelos litúrgicos e musicais de Roma. Tal não deixou de ter consequências na própria organaria, levando a uma reaproximação da organaria portuguesa aos modelos musicais italianos, sem contudo perder o seu carácter. Deste período, a marca mais profunda é a introdução de alavancas permitindo ligar e desligar secções inteiras de registos, numa aproximação ao tira-tutti italiano, permitindo a alternância rápida de secções em forte e piano.

 

Construído em 1733, no apogeu do reinado d’ “O magnânimo”, o órgão da capela de S. Miguel da Universidade de Coimbra constitui um dos exemplares mais fascinantes deste órgão ibérico tipicamente português.

Rui Vilão