PEQUENAS HISTÓRIAS DA HISTÓRIA DA ARTE COIMBRÃ.

 

PEQUENAS HISTÓRIAS DA HISTÓRIA DA ARTE COIMBRÃ.

OS PRATOS DE ARROZ DOCE E

A ROUBALHEIRA NO MOSTEIRO DE LORVÃO.

 

O Mosteiro de Lorvão era dos mais rico do país, com um espólio vastíssimo, e que foi alvo de sistemática pilhagem, quer por desconhecidos coleccionadores e antiquários, quer por ilustres académicos que gostavam de comprar baratinho o que podiam, quando ainda não podiam simplesmente roubar.

No Museu Nacional de Machado de Castro, há um conjunto de pratos dos séculos XVI e XVII, com figuras de inspiração oriental, a que os comerciantes chamam e mal "de aranhões" ou de "figura miúda", que foram roubados de lá, e esse é o termo. Reproduzo aqui as palavras de Joaquim Martins Teixeira de Carvalho, republicano, socialista, maçon e ateu: " Relativamente ao possuidor original dos ditos pratos citamos Teixeira de Carvalho, que escreveu na sua “Cerâmica Coimbrã No Século XVI”, a página p. 218: "Do Mosteiro do Lorvão saíram os primeiros exemplares para as colecções de D. Fernando (II) e de lá vieram também outros que levou para Lisboa o Marquês de Sousa Holstein, todos os meus (Teixeira de Carvalho) e todos os que eram propriedade do Instituto (Museu do Instituto de Coimbra), alguns dos quais se conservam no Museu Machado de Castro. Naturalmente que a maioria dos exemplares da colecção de A. A. Gonçalves seriam de igual proveniência. ".

Tudo bons rapazes, a fazer mão baixa ao património da Igreja.

Como a última freira só morreu em 1887, antes, não podiam levar nada que estivesse na clausura e, então, organizaram um esquema: encomendar pratos de arroz doce às últimas monjas e suas "encostadas", mas o arroz doce tinha de vir em "certos pratos", obviamente aqueles que eles queriam e que eram mais valiosos. As pobres das monjas, a morrer de fome, faziam o arroz doce e, depois, de carroça, estes "honrados" cidadãos iam lá ao fim de semana buscar a encomenda, dúzias de pratos de arroz doce de cada vez, pratos que obviamente não pagavam, pois só pagavam o doce. As monjas nem imaginavam o que estavam a perder e ainda agradeciam aquelas boas almas. Uns venderam as colecções, outros cederam alguns ao Museu, em testamento. Uma parte foi para a colecção de Aires de Campos, Conde do Ameal e, depois, através do leilão da sua colecção, para o Museu das Janelas Verdes.

E assim se revela mais uma página negra da formação dos museus portugueses.

Pedro Dias

 

 

 

 

Foto  de um prato do acervo do Museu Nacional de Machado de Castro.

 

Prato 
Séc. XVII 
38,5 cm
MNMC 9566