Pregões

 

Os pregões são vozes ou pequenas melodias com que os vendedores ambulantes anunciam a sua mercadoria utilizando normalmente a mesma maneira de apregoar para o mesmo artigo. Apregoa-se pelo mundo inteiro e esta forma de “markting” vem de longa data.

Com a diminuição destas vozes e sons, as cidades, e Coimbra em particular, ficaram cada vez mais silenciosas e mergulhadas numa mudez doentia.

Ouve-se ainda: “amolador à porta.... amola facas, tesouras e canivetes... arranja chapéus de chuva...” ; aparecia com o seu característico carro-banca, agora bicicleta, a fazer notar a sua presença com o vibrato característico da flauta de pã, também conhecida por gaita de capador!;

A anunciar o Outono, um carrinho com fogareiro, onde assa castanhas que depois mete num cartucho de jornal velho e de vez em quando, a clientela é chamada pelo vendedor de castanhas com o pregão “Quentes e Boas!... oh freguês, uma dúzia uma coroa…”, ( agora euro e meio);

Percorrendo ruas e vielas o homem das cautelas vai dizendo: “amanhã anda a roda… a sorte grande… Quem fica com a taluda?”;

De verão, raramente, mas ainda se vê o vendedor, montado numa bicicleta com um carrinho onde guarda os sorvetes, que refrescam as gargantas alertando com o pregão “gelado fresquinho! Frut'ó chocolate!";

Acabou o Pitrolino a chamar os clientes com uma corneta. Chegava numa carroça puxada a muar onde transportava a sua mercadoria: combustíveis como petróleo e álcool etílico; condimentos como azeite, vinagre ou sal e produtos de limpeza como sabão, lixivia, piassabas, vassouras, penicos, sabão ou palha de aço

Com a venda do leite empacotado, desapareceram também as leiteira que carregadas de vasilhas e medidas, faziam-se anunciar em tom melodioso, “leiiiii…teiiiiiiiiii…ra…!”

A padeira com um grito mais seco anunciava a sua presença – “padeiiiira!”

Os Ardinas gritavam cantarolando: “Seculooó, Notícias! Olh'ó Diário Popular! Diário… Diário de Lisboa! Diário de Coimbra! Despertar! de sacola cheia de jornais pendurada no ombro percorriam toda a cidade e ao mesmo tempo, dobravam o jornal que atiravam para a janela de alguns clientes certos. De voz cavernosa o “Taxeira” acrescentava ao pregão algo que mostrava bem o seu academismo: “Olhó Ponney, traz o Benfica à rasca….!

Muitos outros pregões se ouviram ao longo dos tempos das vendedeiras de arrufadas, carqueja, das lavadeiras, engomadeiras, ferro-velho, ou bolos de Ançã, mas há um, que ficou no ouvido de todos….

"...Sardinha d'areeeeeeeeiiiii...ia! Ó freguesa, está fresquinhal.. ...é grande como a cavala..." A peixeira da Figueira da Foz, acabada de chegar, em camionetas de caixa aberta com o pescado em canastas que colocavam à cabeça e umas calcorreavam a cidade de ponta a ponta outras ficavam no Mercado a lançar os seus pregões para ali fazer o seu negócio.

As sardinheiras apenas vendiam sardinha e as peixeiras em geral com oferta variada: “peixinho fresquinho...é do nosso mar... venha ver freguesa... carapau vivinho a saltar... olhó chicharro vivo!... que rico biqueirão!... linguados…estes são da pedra!... Ó rica santa, não me compra nada?...

Assim era a cidade .... hoje continua a ter sons, mas sem melodia.

Carlos Ferrão

https://www.youtube.com/watch?v=xaHWbRClmWs