Viram o Garcia da Horta?

 

Senhor Director,

Deve andar por aí, pelo Jardim de Santa Cruz, ou peloParque Verde ou talvez poralguma daquelas hortazitas que fazem parte do "Jardim Botânico Il" situado no Bairro do Ingote, a retirar as lesmas e os caracóis das couves ou a amarrar a folhagem dos tomates. É possível também que, como o tempo tem estado à maneira, se encontre refastelado à sombra de alguma nespereira no "Quintal" -
como muitas pessoas dizem do Antero.

 

É que eu gostava de ter dois dedos de conversa sobre horticultura com esse senhor, Garcia da Horta, como turisticamente é bem conhecido, por ser feita a
sua menção nos tituleiros turísticos espalhados pela cidade de Coimbra, - e também na internet - mas que na realidade ninguém sabe ao certo de quem se trata.

No entanto, existem grandes probabilidades - calculo eu - de ter sido confundido no enovelado de conhecimentos rudimentares constantes no empobrecido miolo da caixa craniana de algum minúsculo dr. cientificamente menos elucidado, com Garcia de Orta. Mas se é este, como se não bastasse a exumação dos seus restos mortais seguidos da sua incineração resultante de uma condenação a título póstumo por um dos "caridosos" Tribunais do Santo Ofício, em Goa, agora logram assassinar o seu nome.

De qualquer forma, sinto-me na obrigação de dizer qualquer coisa sobre a figura do Garcia 'de Orta, e não Garcia da Horta, epíteto
com o qual "baptizaram" - sem água-benta - uma rua em Coimbra, como se pode ver nos roteiros turísticos luminosos, espalhados pela cidade.

Este nasceu em Castelo de Vide, era filho de pais judeus (cristãos-novos), frequentou as universidades'de Alcalá e Salamanca, onde
estudou artes e filosofia natural, tendo-se licenciado finalmente em medicina em 1523, tendo sido médico de D. João Ill, antes de embarcar para a Índia.

Foi vanguardista a escrever sobre botânica, farmacologia, medicina tropical e antropologia. Veio a falecer em Goa, em 1568. Escreveu uma obra, titulada Colóquio dos simples e drogas e coisas medicinais da Índia, cuja obra imortalizou o seu nome: Dr. Garcia de Orta - que realmente não foi horteIão. 

Antônio Figueiredo e Silva
Coimbra 

 

Rapinado ao DC de 5-5-2017, primeiro dia da Queima (Ridendo et canendo corrigo mores)