Contas certas

 

Idos vão os tempos em que os adeptos da Académica tinham futebol aos sábados de manhã, umas vezes no campo de Santa Cruz ou/e/ no estádio universitário. E aos domingos idem, aspas, aspas, ou, mais simplesmente, também.

Não me lembro do adversário da Académica: recordo, apenas, que era um desafio de juniores, antecipadamente tido por renhido, pelo que os adeptos da Académica – bons tempos! – enchiam a bancada.

Ninguém tinha vergonha de se dizer da académica, pelo que entre os menos-bem estava muito boa gente – alguns da fina flor – da cidade.

Entre os adeptos encontrava-se um reconhecido cardiologista da cidade, que, além disso e sem perceber nada da matéria, era accionista de uma fábrica de lanifícios no planalto de Santa Clara.

Não, não era a que ficava nas costas dos adeptos…

Reparei que me olhava, ainda que eu não fosse seu doente.

Ao intervalo, que como habitualmente a malta aproveitava para esticar as pernas, e alguns descarregar a bexiga, ou verter águas como outros preferem dizer,  fez-me um gesto e dirigiu-se-me.

Meia dúzia de palavras sobre o jogo, outra maia sobre puerilidades, e ataque em cheio:

- Ó F…, quero falar-lhe numa coisa. O guarda-livros da fábrica – foi aí que eu fiquei a saber que ele também era accionista – diz que os bancos não lhes estão a conceder crédito, e a fábrica, como não pode produzir, está a ficar estrangulada.

Como ele não pertencia à administração da empresa, tentei fugir com o rabo à seringa, como sói dizer-se; ainda por cima , ou por baixo, o pedido de financiamento tinha sido feito num banco concorrente daquele em que fazia qualquer coisa.

Lá fui falando, enrolando o assunto, até que falei na má situação económico-financeira da firma.

Olhou-me fixamente e disse-me convicto da sua verdade:

- Não me diga isso. O guarda-livros da fábrica mostrou-me o balanço e a coluna da direita é igual à da esquerda. Por isso, a situação da firma está equilibrada!.

Não me ri. Aconselhei-o a falar com o guarda-livros outra vez. E dei-lhe umas dicas…

Lembrei-me da cena ao pensar nas “contas certas” de Costa e Centeno: com papas e bolos se enganam os tolos! E os incautos!