A-CADÉ-MI-CA!

Demorei dois dias a conseguir escrever após o Académica – Cova da Piedade. No dia e após o jogo doía-me, ainda me dói, a alma e não me apetecia colocar em texto o que essa alma sofria. A desilusão foi enorme e talvez só fosse tão grande porque igualmente grande era a ilusão de que conseguiríamos. Sabia que tínhamos de esperar um percalço do Santa Clara. Desejava que fosse já nesta jornada mas apostava mais que acontecesse na próxima quando os açorianos jogassem em Viseu. A ilusão e amor à minha causa fazia-me acreditar que ganharíamos os nossos jogos. Mas não, perdemos com 20 mil testemunhas. Que grande soco no estômago. Mas não é sobre o jogo que quero escrever. Ainda em pleno estádio tive mais uma lição de vida. E essa continua a ser a sensação mais forte que trouxe do estádio. Um senhor que aparentava mais de 80 anos, daqueles senhores distintos, bem vestidos, idoso magro, seco de carnes com as veias azuladas salientes nas costas das mãos via o jogo perto de mim. Nos últimos 15 minutos foi para as escadas e agarrou-se ao corrimão de proteção. E tremeu. Tremeu de ansiedade, tremeu de medo do que estava para acontecer, tremeu de angústia, tremeu tanto que acabou por sentar-se na escada com olhar perdido. Não consegui ver o resto do jogo sem estar sempre a olhar para o senhor, ver se estava bem. Com o aproximar do final ele ia definhando tal como a esperança num resultado melhor. A minha preocupação ia aumentando, a que me era trazida do relvado e a que estava ao meu lado, o senhor inspirava claros cuidados. Revi ali preocupações que tive com o meu pai em jogos de igual intensidade. Várias pessoas quiseram saber se precisava de ajuda, ele declinou. Já no final veio a lição de vida, o murro do resultado pareceu pequeno depois de ouvir a resposta daquele senhor, idoso, seco, a tremer. Resposta à minha observação que procurava ser de conforto. Deixe lá, disse eu, subimos para o ano. Sim respondeu ele, para si há tempo, mas eu não sei se estarei cá para ver e eu gostaria de voltar a ver a Académica na primeira. Não consegui responder, logo eu que tenho sempre resposta pronta para tudo admito que fiquei calado sem saber o que dizer perante a desilusão que vinha das palavras do senhor, idoso e seco de carnes, palavras que bateram com força no meu íntimo, até esqueci que tinha perdido um jogo, uma subida, um sonho. Tinha perdido mas com hipótese de ver num prazo curto a situação resolvida. Mas não o senhor idoso, ele não tinha tempo, acho que ele se despedia ali de um sonho que não pensa ver realizado.

Oxalá se engane, o tempo, o ser breve, é tão relativo quando, teoricamente, temos já menos para usar do que outros. Espero que se engane e que possa voltar a tremer no mesmo estádio, no mesmo corrimão onde se agarrará com a mesma mão de carne seca e veias salientes azuladas, vestido na mesma de forma distinta e cuidada, sofrendo pela mesma Académica mas com final diferente. Que se agarre com força com uma mão e com a outra possa agitar um cachecol preto enquanto berra alegremente A-CADÉ-MI-CA!

 

Rui Rodrigues

Coimbra

Imagem -Futebol 365

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