O FUTEBOL ERA O PRETEXTO

Era certo e sabido.

Na manhã de sábado, ao Terreiro do Paço, ao Rossio, à Rua do Coliseu, à Av. da Liberdade, para assistirem a um jogo da Académica em Lisboa com o Benfica, com o Sporting ou com o Belenenses, normalmente realizados em tarde de domingo, começavam a afluir, de boleia ou de comboio, milhares de adeptos vindos de Coimbra.

O negrume das capas negras ia tingindo a baixa da capital temperando a cor soturna com a alegre e vivaz algaraviada própria dos jovens que as envergavam.

Mas o ponto alto da deslocação acontecia na noite de sábado para domingo.

Todos acorriam para o Bairro Alto para viverem a noite lisboeta desfrutando, de olhos esbugalhados, de momentos que Coimbra lhes não oferecia.

O Bernardino, que muitas vezes já tinha demandado Lisboa em ocasiões anteriores era uma espécie de cicerone para o resto da malta que o acompanhava.

Das putas, guardava um ternura indelével fruto de momentos a ouvir-lhes os sonhos nos bordéis esparsos por obscuras ruas e travessas.

- “hás ver menino, um dia vai entrar aí um camone que me leva para a América. Depois também vou ser séria”

- “mas tu já és séria”, retorquia-lhe o Bernardino.”Não finges amar sem amor”

Além de putas sérias, o Bairro Alto era fértil em tascas.

Era a bifana retirada a pingar da frigideira gordurenta, era o caldo de camarão engrossado com farinha tostada, eram as pescadinhas de rabo na boca de escabeche avinagrado, tudo regado com tinto retirado a espumar do barril de madeira.

Aquilo de que o Bernardino menos gostava era das casas de fado.

Nos bordéis, o cliente não era enganado, não era atraido com falsas promessas de amor genuino, não era obrigado a pagar por favores que antecipadamente sabia não ir receber.

Ao contrário, nas casas de fado pagava-se tudo por nada.

Cantadores e cantadeiras saiam da penumbra afastando pesados reposteiros sujos, tresandando a naftalina, e, apressados, gorgulejavam as letras trágicas em desconchavo com os trinados das guitarras e os ritmos das violas.

Nessas alturas,o Bernardino sentia saudades das vozes límpidas do Fado de Coimbra e da pureza cristalina dos acordes das guitarras a ecoar nas noites frias e silenciosas no meio do casario da sua cidade.

 

Fui seu amigo.

Morreu cedo.

Uma das melhores vozes de sempre de Coimbra, e por isso tinha razão no que dizia...

Rui Felici