RAÍZES

 

Naquele malfadado abril académico, em que meia dúzia de loucos, apoiada por umas dúzias de acéfalos, expulsaram do seio da associação Académica a sua secção de futebol, a Académica que dera nome ao organismo, corrida e epitetada de tudo quanto era nojento e definia quem contra ela estava, na guerra aberta pelos adiantados mentais da época cujos nomes, por repugnantes, aqui me coíbo de mencionar, apareceu o grupo de verdadeiros sócios da Académica que a quis manter no topo no futebol lusitano.

Foi uma guerra enorme, com prós e contras: internos, os cabecilhas revolucionários e aderentes lambe-botas; e externos, os clubes federados que, com a “expulsão” da Académica, anteviam uma vaga a ocupar.

Não vale a pena mencionar os nomes dos muitos que se agregaram na defesa da Académica, a Académica que, de imediato, teve de encontrar outro nome, que apareceu sob a sigla CAC (clube académico de Coimbra).

Não vale a pena relembrar as lutas – ou talvez valha! – em que sobressaíram os “cabeças”: do PSD (Professor Doutor Mota Pinto), do PS (dr. Almeida Santos); do PC (engº. Couceiro) e da esquerda radical (dr. Viegas), que “domesticaram” as suas hostes impondo-lhes, ou propondo-lhes, acalmia. A estas pessoas, principalmente a estas pessoas, nunca foi prestada a devida homenagem…

Há, todavia, a nível nacional, uma individualidade que não pode nem deve esquecer-se, melhor, escamotear-se: o eng.º Vasco Gonçalves, primeiro-ministro na época, que acabou com a controvérsia: o CAC era o legítimo continuador da secção de futebol da AAC e ocuparia o seu lugar no quadro dos campeonatos nacionais em que competia, i.e., na I divisão. E o “mundo” do futebol calou-se; e o “outro” também!

Ganha a grande batalha, havia que encontrar um poiso, a sede administrativa. E aconteceu: um sócio amigo “ofereceu”, a preço quase de saldo, o bonito prédio dos arcos, o agora chamado “palácio da saudade”.

Eram precisos 3.000 contos, e tinham de encontrar-se 100 sócios, que disponibilizassem 30 contos cada. Apareceram. Entretanto, uns desistiram, e o montante em falta foi assumido por uns quantos dos outros.

Concluindo: 96 sócios, cujos nomes estão no átrio principal do prédio, “deram”, melhor, “emprestaram” uma sede ao CAC.

Claro que com tanta gente, alguma da qual ligada ao sector do imobiliário, passou pela cabeça de alguns fazer “negócio”, e a Procac, nome da sociedade adquirente do prédio, entrou “ em crise” administrativa: sem receitas e com a necessidade de suprir gastos era óbvio que acontecesse. E toda a gente começou a baldar-se, alguns, quem sabe, esperançados em adquirir o prédio por tuta e meia.

Foi o Eng.º Ramos de Carvalho que, convidando-me e ao Doutor Seréns para a administração, salvou a sociedade, isto é, o prédio: sem receitas, eu e o sr eng.º - o Doutor Seréns não era acionista – passámos a assumir as despesas; e não eram tão poucas quanto isso… pois o CAC/ Académica não pagava nem a luz nem a água nem despesas de conservação, e recebia, ainda que tarde e a más horas, as receitas provenientes do arrendamento do café/restaurante…

Os tempos passaram, muita água correu sob as pontes do Mondego, e o prédio lá está, propriedade agora da Académica, que adquiriu a maior parte das acções da Procac, que, disso resultante, foi dissolvida.

Eis senão quando, aparece a actual direcção da Académica-OAF a querer “desfazer-se” de um edifício de grande carisma para os sócios, a primeira alma – ou alma reincarnada – da Briosa assassinada naquele 74 já distante, de má memória para a “nossa”, bela e imaculada, renascida não das cinzas mas das chamas que se não apagaram.

Porque nunca recebi um tostão nem das acções nem do dinheiro que abonei para que que a Procac não entrasse em falência técnica e o prédio vendido ao desbarato, custa-me agora notar a insensibilidade com que direcção e apoiantes estão a querer fazer negócio. O mesmo sucederá com os que, como eu, nunca quiseram receber o valor das acções.

Arrancar as “raízes” por força de negociata? Bem, só se eu não puder obstaculizar o “negócio”…

(Nota: Há um processo de impugnação em curso da dissolução da sociedade [Del.2286/2015]…).