Editorial 10-06-2017

EDITORIAL DE 10-06-2017

Não fosse blasfémia, diria que o dez de Junho é o dia da trindade, não da Santíssima, mas da portuguesa: dia de Camões, dia da Raça e dia de Portugal metidos num saco de que cada um tirará o nome à sorte.

Nos festejos de hoje, no Porto, Marcelo Rebelo de Sousa apontou para um país que é passado mas também futuro, “independente” do atraso e da pobreza e “livre” da dívida do pensamentos único. Sumulando: “10 de junho, dia de Portugal. De um Portugal que sabemos ser passado mas que queremos futuro independente e livre. Independente do atraso, da ignorância, da pobreza, da injustiça, da dívida, da sujeição. Livre da prepotência, da demagogia, do pensamento único, da xenofobia e do racismo”, e voltando a remarcar a ideia de futuro: “Só seremos portadores de independência, de liberdade e de universalismo se juntarmos à cultura ancestral a antecipação do futuro”.

Bem prega S. Tomás, olha para o que ele diz e não para o que faz. Habituado desde sempre ao lema de “Res non verba”, custa-me entender os palavrosos, os repetidores de lugares comuns, de palavras lindas, apetitosas, apelativas, mas que não têm consequências visíveis, principalmente por parte de que quem as profere e não as pratica.

Marcelo fala do que não sabe, porque, sorte dele e não de muitos portugueses, nunca soube o que é ser pobre, o ter de olhar continuamente para os parcos tostões de salários abaixo dos mínimos – mesmo estes já paupérrimos – ou de pensões de reforma em contínua degradação.

Marcelo sabe, mas finge desconhecer, que o país “rendível”, da banca à agricultura, já não é dos portugueses mas sim de empresas e personalidades estrangeiras, que lhes suga os rendimentos; Marcelo sabe - e não actua - que o país se transformou num viveiro de corruptos, de gente multimilionária com fortunas adquiridas não se sabe bem como; ou melhor, sabe-se sobejamente, e que uma justiça que quer agir – quererá? - está manietada por leis pro criminosos, a quem deveria provar donde lhes advieram bens e proveitos e não serem os tribunais a fazê-lo, gente que empobreceu bancos e outras empresas e continua a rir-se de tudo e de todos, gordos de mãos sujas e outros usurpadores.

Portugal não é o que o governo de Costa e Centeio apregoam: é um país de um povo asfixiado por cada vez mais impostos indirectos, um país de um povo que, a não inverter-se o rumo, estará condenado não à fome, que já a há, e muita, mas à miséria, ou misérias, a todos os níveis.

No dia em que se celebra o país irreal, salve-se uma notícia de truz: Alegre, um poetaço com presente, sem passado e sem futuro, recebeu o prémio Camões da literatura. Camões, lá no além ou no túmulo, deve gargalhar a bandeiras despregadas.

O Ponney é um jornal de brincadeiras. Leiam este editorial como entenderem. Eu fico-me a rir. De tristeza.

ZEQUE