Editorial 18/09/2026
O FUTURO CONSTRÓI-SE COM BÚSSOLAS,
NÃO COM PLACEBOS!
Falar sobre o Futuro tornou-se o exercício de ficção mais popular da nossa era (sobretudo com as discussões sobre “Inteligência” Artificial). Discute-se o amanhã em conferências reluzentes, desenham-se metas para as próximas décadas com o mesmo desprendimento com que se fazem promessas de Ano Novo, mas a verdade inconveniente permanece: o futuro não é um acontecimento mágico que surge por geração espontânea.
O futuro é, por definição, o somatório geométrico das decisões — ou das omissões — que validamos no presente. E a julgar pelo panorama atual, a nossa única certeza é que estamos a navegar em direção ao amanhã sem bússola, sem mapas e, tragicamente, sem timoneiros.
É precisamente este desfasamento entre o planeamento real e a improvisação política que serve de espinha dorsal a esta edição de O Ponney. Olhamos para a realidade que nos cerca e o veredicto é inequívoco: falta-nos visão de longo prazo e sobra-nos engenharia burocrática para remediar os desastres que nós próprios criámos.
A nossa grande radiografia começa, inevitavelmente, no chão da escola. No artigo «NOVO ANO ESCOLAR OU O MILAGRE DA MULTIPLICAÇÃO», analisamos o arranque das aulas e questionamos se o Ministério da Educação fez a devida planificação ou se continuamos reféns do eterno milagre da multiplicação dos velhos erros estruturais, agora sob uma capa de modernidade digital.
Mas a falha vai mais fundo.
Em «ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA ESCOLAR», lançamos a pergunta incómoda: aulas para quê? Se o sistema não define metas claras e se recusa a simular os desafios que aí vêm, como podemos escolher o melhor caminho? Continuamos a formatar os jovens para um mundo industrial que já deixou de existir.
Essa mesma falta de planeamento e de consequência nas políticas públicas salta das salas de aula para os nossos pratos e para as nossas ruas. No artigo «A REVOLUÇÃO DAS CASCAS E O MISTÉRIO DA NOZ TÓXICA», demonstramos como a ausência de instrução e a falta de otimização na agroindústria transformam toneladas de recursos valiosos em desperdício crónico, provando que campanhas de sensibilização sem consequência prática são apenas fumaça.
E se quer o exemplo perfeito do caos gerado pela improvisação travestida de ecologia, o artigo «VOLTA LÁ PARA O VIDRO» disseca a engenharia financeira por detrás do novo sistema de caução de garrafas de plástico e de latas — uma ópera de voluntariado forçado que está a virar os caixotes das cidades do avesso e a destapar a verdadeira miséria, que os políticos eleitos insistem em esconder debaixo do tapete social.
O Ponney é, por matriz, um espaço de denúncia, mas também um porto de abrigo para os artistas, essas raras almas que conseguem ver e traduzir o outro lado da realidade. Nesta edição, celebramos essa sensibilidade com a peça «RETRATOS A CARVÃO COM ALMA DA MAGGIE’S DRAWINGS». Ouvimos a artista, que é mais do que a retratista, Margarida Costa, que levanta questões importantes.
A nossa habitual tira de banda desenhada traz-lhe, com o traço satírico do costume, a anatomia da camuflagem partidária — esse jogo de camaleões onde as convicções mudam de cor conforme a conveniência do estúdio.
Nas páginas de opinião, os nossos cronistas dissecam as fraturas e as raízes da nossa identidade. Otávio Ferreira assina a primeira parte de um ensaio cirúrgico, «Procura-se: O Maior Inimigo Público de Portugal – Parte I», apontando o dedo aos erros crónicos que urgem ser travados se queremos ter um país soberano. A Mariana Cortez traz-nos o diagnóstico clínico do cinismo autárquico em «A ASSEMBLEIA CIDADÃ E A TERAPIA DO ÓBVIO», analisando a política local sob o prisma da saúde mental institucional.
Por fim, num belíssimo apontamento para reflexão, Manuela Jones faz ecoar a nossa História ao recordar como D. Sesnando Davides, o moçárabe que governou Coimbra, desenhou as primeiras linhas da nossa matriz cultural e de tolerância, lembrando-nos de que o futuro só ganha corpo quando respeita as fundações do passado.
O presente que nos dão a viver é confuso, atomizado e reativo. Mas nas páginas que se seguem, o leitor encontrará o antidoto d'O Ponney: o inconformismo lúcido, a verdade factual e a ironia necessária para desmontar as ilusões do sistema.
Resta-nos desejar aos nossos leitores um excelente fim de semana e que pelo menos façam uma ação para ajudarmos a nossa Mãe Terra.
José Augusto Gomes
Diretor do jornal O Ponney
