Editorial 25/09/2026

EDITORIAL 25 09 26

FICHEIROS CADA VEZ MENOS SECRETOS

 

Houve um tempo em que as teorias da conspiração e os mistérios inexplicáveis ficavam guardados na televisão.

Quem se lembra da icónica série “Ficheiros Secretos” recordar-se-á da célebre máxima: “A verdade está lá fora”. Pois bem, se os agentes Mulder e Scully aterrassem hoje no Concelho de Coimbra, rapidamente chegariam à conclusão de que a ficção científica perdeu o monopólio do absurdo. Por cá, as histórias mais surreais, onde o abuso de poder, o compadrio e a incompetência de planeamento estão escancarados à luz do dia e não precisam de ficheiros confidenciais. Estão à vista de todos nas atas municipais e nos despachos reitorais.

A grande diferença é que, em Coimbra, a conspiração não envolve extraterrestres. Envolve uma elite política e institucional quase terrena, empenhada em convencer os cidadãos de que a improvisação é progresso e que o privilégio é mérito. Esta edição d’O Ponney funciona como uma autêntica auditoria a esses "ficheiros" que o sistema tenta maquilhar com propaganda.

O primeiro caso em análise leva-nos à engenharia dos megaprojetos com «O MEGAPARQUE E O FANTASMA REENCARNADO DO iPARQUE». Investigamos a espantosa audácia das lideranças regionais que, incapazes de preencher e rentabilizar o histórico elefante branco de Antanhol ao fim de mais de uma década de prejuízos, decidem prometer um novo megaparque empresarial seis vezes maior. Uma história paranormal onde o betão se multiplica e a memória desaparece.

Subindo a encosta, entramos nos claustros da Alta com o artigo «A “HARMONIA” ACADÉMICA DE UMA CRISE SILENCIOSA». Aqui, o mistério reside na capacidade da Reitoria da Universidade de Coimbra em decretar um estado de "Harmonia" cultural no exato momento em que os dados factuais revelam que um quarto dos seus estudantes equaciona abandonar as salas de aula por falta de dinheiro para pagar quartos que já superam a barreira dos 310 euros. Uma harmonia celestial e etérea, que tem a extraordinária propriedade de ignorar o mercado informal e as faturas que os alunos não conseguem pagar.

De volta à Baixa coimbrã, espreitamos os fenómenos do ilusionismo rodoviário em «O DELÍRIO DO URBANISMO TÁTICO». Desmascaramos a terapêutica municipal de fechar vias e pintar círculos fluorescentes no asfalto da histórica Rua da Sofia durante a Semana da Mobilidade, fingindo que latas de tinta berrante e vasos de plástico resolvem o nó cego do trânsito na Baixa.

Mas o ficheiro mais escandaloso desta edição — aquele que desafia a própria lei da gravidade partidária — é dissecado em «A INCRÍVEL VIAGEM DE MARIA À VOLTA DOS TACHOS». Trata-se da crónica jornalística sobre o percurso acrobático da vereadora Maria Lencastre, que num ápice passou da bancada do Chega à independência, da independência ao voto favorável à maioria de Ana Abrunhosa, da gestão recusada do ITAP em Abril à nomeação dourada em agosto na mesmíssima estrutura que criticara meses antes. Uma ginástica laboral que explica na perfeição a falta de confiança do eleitorado nos eleitos.

Por fim, fechamos com uma nota de humor sobre a gestão do quotidiano em «O AVENTAL E OS 60 MINUTOS NO MERCADO», onde a autarquia tenta estancar a revolta dos comerciantes do Mercado D. Pedro V distribuindo aventais e oferecendo uma hora de parqueamento gratuito — transformando o ato de comprar legumes numa prova de atletismo contrarrelógio.

Tal como na mítica série, em Coimbra “queremos acreditar” que as coisas vão mudar. Mas enquanto o executivo continuar a gerir a cidade com base em placebos estéticos e favores de bastidor, O Ponney continuará por cá para abrir os ficheiros que eles preferiam ver trancados a sete chaves.

Nos artigos de opinião temos o nosso amigo Otávio Ferreira com a continuação do seu artigo «PROCURA-SE: O MAIOR INIMIGO PÚBLICO DE PORTUGAL - PARTE II».

Na linha de celebração e memória, a nossa sempre assídua Manuela Jones traz-nos o artigo «LUÍSA TODI : A VOZ DE SETÚBAL QUE CONQUISTOU O MUNDO (I)»

Outros artigos apresentamos.

 

Assim, terminamos desejando um fim de semana e boas leituras;

José Augusto Gomes

Diretor do jornal digital O Ponney