Editorial 27-07-2019

TUDO AQUILO A QUE SE CHAMA AMOR.                                                                                                                                                                                                                                                                      Cupidez e amor!                                                                                                                                         

´Que sentimentos tão diferentes nos evoca cada um destes termos! E, no entanto, poderia tratar-se do mesmo instinto com dois nomes:  um, ofensivo, do ponto de vista dos que já o experimentaram, nos quais o instinto já se acalmou,  até certo ponto, e que agora temem pelos seus "bens"; o outro, do ponto de vista do insatsfeito, do sedento que, consequentemente, glorifica o instinto como "bom". O nosso amor ao próximo não será um impulso para uma nova propriedade? E, também, o nosso amor ao saber,  à verdade e, em geral, todo o impulso para o que é novo? A pouco e pouco vamos ficando cansados do velho, daquilo que possuímos com toda a segurança e estendemos novamente as mãos para agarrar o novo. Mesmo a mais bela paisagem deixa de estar certa do nosso amor, depois de lá termos vivido durante tres meses, e uma qualquer costa marítima dstante excita o nosso desejo: o bem possuído deprecia-se geralmente com a posse. O nosso prazer  em nós próprios quer manter-se tão intenso que transforma, sem cessar, em nós próprios o que é novo - e é nisto precisamente que consiste a posse. Estar saturado de uma posse significa estar saturado de si próprio. (Pode-se também sofrer de um excesso - o desejo de detar fora ou de partilhar pode também receber o nome honroso de "amor").  Quando vemos alguém sofrer, lançamos mão desta oportunidade de nos apropriarmos desse alguém; isto é, por exemplo, que faz o homem caridoso e compassivo: também ele chama "amor" ao desejo em si desperto de uma nova posse; e o prazer que sente é comparável ao que lhe suscita a perspectiva de um a noca conquista.  Mas é o amor entre os sexos que mais nitidamente se trai como um instinto de posse:  o amante quer a  posse exclusiva da pessoa que deseja; ele quer exercer um poder exclusivo tanto sobre a sua alma como sobre o seu corpo; ele quer ser amado por ela de forma exclusiva e quer habitar e dominar nessa alma como se isto fosse o que houvesse de mais elevado e mais desejável para ela. See considerar que isto nada mais sigfina do que excluir  todo o mundo de um bem precioso, qual seja a felicidade e o prazer; se se considerar que o amante visa o empobrecimento e a privação de todos os outros pretendentes e só aspira a tornar-se o dragão do seu tesouro como o "conquistador" e o explorador mais  destituído de escrúplos e mais egoista e que, enfim, aos olhos do amante, mesmo o mundo inteiro surge como indiferente, descolorido, desprovido de interesse,  estando o amante disposto a tudo sacrificar-se, a pertubar toda e qualquer ordem, a subordinar todos os outros interesses, então sentimos uma genuína surpresa, quando nos lembramos de que esta cupidez e esta injustiça selvática do amor sexual tenham sido glorificadas e divinizadas, como aconteceu em todas as épocas, que s tenha chegado ao ponto de extrair deste amor o conceito do amor como oposto ao egoísmo, enquanto, de facto,  ele constitui talvez,  precisamente, a expressão mais autêntica do egoismo. Neste ponto o uso linguístico foi feito evidentemente por aqueles que não possuíam, mas desejavam, ,os quais,, sem dúvida, foram sempre em numero demasiado elevado. Aqueles a quem a sorte reservou, neste domínio, a posse e a satisfação em abundância, sem dúvida, deixaram cair, aqui e ali, uma palavra sobre o "demónio furioso", como fez o mais amável e amado doas atenienses, Sófocles. Mas Eros sempre riu destes blafemos que, todavia, foram invariavelmente  os seus favoritos. É verdade que,  aqui e ali, há, sobre a Terra, uma espécie de pronlongamento do amor no qual este desejo possessivo de duas pessoas, desejo de uma pela outra, de lugar a um novo desejo e ânsia de posse, a uma sede superior partilhada  por um novo ideal que as transcende. Mas quem conhece esse amor? Quem é que já o experimentou? O seu verdadeiro nome é: AMIZADE. (NIETZSCHE)



                                                                                                                  (Antarco)