A ASSEMBLEIA CIDADÃ E A TERAPIA DO ÓBVIO

Observo frequentemente com fascínio um mecanismo de defesa muito comum na mente humana: a dissociação. É aquele processo em que o indivíduo, incapaz de lidar com uma realidade traumática e avassaladora, prefere criar uma narrativa paralela, confortável e totalmente desconectada do chão que pisa.
Pelos vistos, a dissociação deixou de ser um fenómeno puramente clínico e passou a ser o modelo de gestão da Câmara Municipal de Coimbra.
A assinatura do protocolo para a criação da primeira Assembleia Cidadã de Coimbra, dedicada pomposamente ao tema “Como reter os jovens em Coimbra?”, é um monumento a esta patologia institucional.
Juntaram-se os Paços do Concelho, a Universidade de Coimbra, o Politécnico e a Comunidade Intermunicipal. No Salão Nobre, entre discursos reluzentes sobre "participação cívica", "inclusão" e "métodos deliberativos aleatórios", instalou-se uma espécie de terapia de grupo institucional para debater um mistério digno de um enredo de uma telenovela. Porque é que as novas gerações fogem desta cidade como quem foge de uma assombração?
O diagnóstico é simples, mas a autarquia prefere investir em consultas de diagnóstico desnecessárias. Enquanto os decisores políticos preparam o método para selecionar setenta e cinco almas aleatórias para debater o sexo dos anjos, os dados reais da saúde mental e financeira dos estudantes estão escancarados na rua.
A Associação Académica de Coimbra acabou de publicar um relatório onde revela que um quarto dos alunos já ponderou abandonar o ensino superior simplesmente porque não tem dinheiro para viver na cidade. O preço médio de um quarto ultrapassou a barreira dos 310 euros por mês. Mais de 65% dos jovens vivem sufocados por rendas absurdas, e um terço sobrevive na clandestinidade do mercado informal, sem contratos, sem recibos e sem direitos.
Propor uma "Assembleia Cidadã" para debater a retenção de jovens" neste cenário é o equivalente a convocar uma comissão científica para analisar a percentagem de humidade numa casa que está, neste preciso momento, com água a dar pelo pescoço dos inquilinos. Não é preciso uma dinâmica de grupo ou um debate público participativo para perceber que os jovens não se fixam onde não conseguem pagar um teto. Não há "Plano Municipal de Juventude" ou "kit de sobrevivência académica" que cure a ansiedade de quem não sabe se no próximo mês terá dinheiro para a renda e para a alimentação.
A retenção de talentos não é um enigma metafísico que necessite de especialistas do Centro de Estudos Sociais ou do Instituto Jurídico para ser descodificado. É uma equação pragmática: chama-se habitação acessível, salários dignos e qualidade de vida. Quando o município finge que o problema é a falta de "diálogo institucional" ou de "partilha de perspetivas", está apenas a aplicar um anestésico burocrático sobre uma fratura exposta.
Esta Assembleia Cidadã corre o risco de ser apenas mais um placebo político. Uma encenação deliberativa para que os governantes locais possam bater no peito nos 50 anos do poder local democrático, alegando que "ouviram as pessoas", enquanto continuam a assobiar para o lado perante a especulação imobiliária que esvazia a Alta e a Baixa de Coimbra.
Os jovens não precisam de ser escutados em assembleias de figurantes aleatórios; precisam que as instituições tenham a coragem de agir sobre o óbvio. Até lá, a única coisa que Coimbra vai conseguir reter são os relatórios destas comissões, devidamente arquivados e cobertos de pó, a fazer companhia à humidade das paredes das repúblicas que os estudantes já não conseguem pagar.
Mariana Cortez
