DIGRESSÕES EM TORNO DE UM BURACO NEGRO

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O buraco negro fazia as vezes da última novidade, agora que os buracos se tornaram perigosos por causa das doenças venéreas. Verdadeiramente, tinha-me levantado nessa manhã bastante cedo, porque a besta do 3º C andava em obras e nos intervalos batia na mulher. Por isso, tanto as marretadas nas paredes como as lambadas no rosto da pobre mulher ecoavam, a meias, pela caixa de ar do prédio e faziam uma chinfrineira do caraças. Foi nessa altura que, estremunhado, abri a telefonia, por sinal um Telefunken do século transacto, e ouvi dizer que vinha aí o buraco.

Lembrei a Micó e a Tatá, mas não se tratava de nenhuma dessas - que, aliás eram ambas morenas. Tratava-se de uma coisa fenomenal e cósmica , que até fazia figurar o Einstein, dos tempos em que ele tinha ido assistir à "première" do filme do "Charlot" , sim , essa fita , mesmo essa fita que os portugueses tinham traduzido gloriosamente por "A Quimera do Ouro" ( três palavras") , a partir de uma matriz chamada "The Golden Rush" ( três palavras) . E o dito Telefunken berrava como um possesso que agora se tinha fotografado o buraco . E negro, para que não houvesse dúvidas. Voltei a lembrar-me da Micó, embora essa deixasse algumas dúvidas. E o Senhor que berrava no éter garantia que era agora que a Humanidade ia conhecer os segredos genesíacos da formação do Universo. Fiquei pasmado porque aquilo de conhecer segredos nunca me tinha acontecido nem com a Tatá, nem com a Micó. Mas depois pensei melhor e cheguei à conclusão que aquela, pelo muito que tinham vivido (graças a Deus) já não podiam desmontar - eu disse desmontar? - o Universo para ninguém.

Este último juízo, pelo seu fundamento filosófico, provocou-me uma indizível nostalgia. Bebi um copo com água e fui outra vez para o meu vale de lençóis.

Imagem retirada da net

Amadeu Homem