E se a Síria for palco de uma guerra entre EUA e Rússia?

 

Qual é o envolvimento dos Estados Unidos na Síria?

A presença dos Estados Unidos no Médio Oriente não pode ser entendida fora do quadro da Guerra no Iraque (março de 2003) – que teve os seus antecedentes no ataque às torres gémeas em Nova Iorque, em 11 de setembro de 2001. Para além de ter ficado provado que a invasão do Iraque foi um passo ao lado na procura dos responsáveis pelos atentados e na luta contra o terrorismo, a intervenção dos Estados Unidos teve duas consequências perenes: a suspeita de que o governo norte-americano liderado por George W. Bush enganou ou pelo menos não contou a história toda aos seus parceiros internacionais; e a recusa do seu sucessor, Barack Obama, em alinhar pelo mesmo posicionamento de Bush. Enquanto as tropas norte-americanas andaram pelo Iraque, e como era de esperar, a Síria – cujo relacionamento com os Estados Unidos nunca tinha sido muito amigável – tornou-se num adversário, a pontos de dar cobertura ao exílio de vários dirigentes do regime de Saddam Hussein, que recusou entregar às tropas invasoras do país vizinho. A recusa de Obama enveredar por atitudes musculadas em terras do Médio Oriente – a que entretanto se acrescentava uma intervenção tremendamente desastrada na Líbia – fez com que, quando o presidente sírio, Bashar al-Assad, começou a ser acossado pela oposição, os Estados Unidos recusassem um envolvimento direto no assunto. Mesmo quando em 2012 al-Assad esteve perto de sofrer uma derrota militar, Obama manteve-se distante do problema, ainda que condenasse fortemente os ataques do governante sírio contra o seu próprio povo – já na altura com acusações de usar armas químicas. O resultado dessa ausência foi o que hoje se conhece: a Rússia interveio na guerra civil ao lado de Assad e passou a ser o seu mais fiel aliado.

O que é que mudou para os Estados Unidos regressarem ao terreno?

A formação do Estado Islâmico (o califado foi proclamado em junho de 2014) e os atentados na Europa obrigaram Obama a alterar o seu posicionamento face ao Médio Oriente. Em teoria, fazia sentido: a guerra na Síria deixava de ter um quadro puramente regional, para passar a ser uma questão entre o Ocidente e o Oriente, ou um certo Oriente, que não passava ao lado de nenhum país ocidental. Mesmo assim, o envolvimento dos Estados Unidos – principalmente quando comparado com a operação da invasão do Iraque – foi sempre contido e ‘resguardado’. E passou pelo apoio logístico aos grupos que combatiam os Estado Islâmico – desde logo diversos grupos combatentes curdos, os mesmos que neste momento estão em fuga à frente das armas da Turquia – e pela contida presença militar no terreno. Até porque esse terreno estava cheio de tropas russas e iraquianas. Quando Donald Trump entrou na Casa Branca, o posicionamento dos Estados Unidos face à guerra na Síria não sofreu nenhuma alteração substancial: contenção era a palavra de ordem – mesmo que os sauditas estivessem pouco confortáveis com ela.

Quantos soldados norte-americanos estão na Síria?

No fim da guerra entre o regime sírio e o Estado Islâmico, a presença de soldados norte-americanos no terreno era de cerca de dois mil efetivos, segundo dados avançados em dezembro passado pelo Pentágono – que corrigiam dados do executivo de Trump de uma semana antes, que falavam de 503 soldados. Nos anos da guerra, esta presença contida manifestou-se principalmente em ataques aéreos individuais a objetivos militares e pouco mais. Mesmo o lançamento (em território afegão), em abril de 2017, da GBU-43/B Massive Ordnance Air Blast, a ‘mãe de todas as bombas’ foi um ato isolado. E, mal o problema do Estado Islâmico deu mostras de estar resolvido ou em vias disso, o regime de al-Assad pediu a Trump, em novembro de 2017, que retirasse as suas tropas do terreno. O presidente dos Estados Unidos disse que sim e pouco tempo depois, 400 fuzileiros que haviam participado na reconquista de Al Raqqa ao Daesh deixavam a Síria. Estas contabilidades são sempre complexas, mas a presença de tropas norte-americanas na Síria deve por esta altura ser muito reduzida.

Imagem da net

António Freitas de Sousa

(Adaptado)