“GOYTISOLO, en su amargo final”



Por motivos que não vêm agora ao caso, comprei o El País e encontrei aquele título, nas páginas dedicadas à cultura. Não conheço o nome, nunca tinha ouvido falar antes, achei depois que o apelido do senhor Juan, olhando bem, já deixa umas gotículas de amargura só de lê-lo.

Trata-se, pois, de um senhor de olhar tranquilo e terno, com uma espécie de sorriso, cantos da boca descaídos, lábios contraídos, poucas rugas, num todo impenetrável. Em 2014 assumiu que o seu corpo já não aguentava mais e:

- A minha decisão de recorrer à eutanásia, a fim de não prolongar inutilmente os meus dias, obedece a razões éticas de índole pessoal. Desaparecida a líbido e com ela a escrita, comprovo que já disse o que tinha a dizer. Tão pouco o meu corpo dá para mais. Cada constato a sua deterioração e, antes que esse declive afecte a minha capacidade cognitiva, prefiro antecipar-me à minha ruína e despedir-me da vida com dignidade. A outra razão da eutanásia é a de assegurar o futuro de três rapazes, cuja educação eu assumo. Parece-me indecente desbaratar os limitados recursos de que disponho, e que diminuem diariamente, em caros tratamentos médicos em vez de destinar esse dinheiro para que completem os seus estudos. Por tudo isso, escolho a opção mais justa de acordo com a minha consciência e respeito pela vida dos outros.”

Juan Goytisolo vivia obcecado com a educação dos seus três afilhados filhos dos seus dois maiores amigos. Todos eles e ainda a mulher de um deles, viviam com Goytisolo num antigo hostal que o escritor comprara em 97. Formavam aquilo a que ele mesmo chamou a sua “tribo” e a sua tribo cuidou dele até final.

Em 2014, com 83 anos, assumiu que o seu corpo não aguentava mais e escreveu a carta sobre a sua opção pela eutanásia. Alguns meses depois, foi anunciada a concessão do prémio Cervantes, o mais importante da língua espanhola, no valor de 125 mil euros à sua obra, a ele que sempre se opusera a esse prémio, em várias ocasiões, tecendo críticas ao mesmo em anos anteriores. “A putrefacção da vida literária espanhola” e “o triunfo do amiguismo perigoso e tribal”.

Goytisolo acabou pr aceitar o prémio e isso fê-lo cair em profunda depressão, porque continuava sem forças para escrever e estava consciente de que se contradizia ao aceitá-lo. Porém, agora, que já possuía dinheiro para os seus afilhados Rida de 23 anos, Yunes de 23 anos e Jalid de 18, menos sentido via em continuar a viver. Nunca cometeu o vitupério de dizer que aceitou o prémio por dinheiro.

Bom! O “amargo final” não acaba aqui. Nem acaba com a eutanásia que um dia “… como amigo te pido que no lo hagas. Porque estes muchachos, aparte del dinero tienen derecho a tener-te ahi. No se trata solo de que les pagues la carrera…”

Outros acontecimentos se foram sucedendo e, segundo os amigos, foi horroroso assistir à sua ausência, à sua decadência como se lhe caíssem cem anos em cima, entre o suicídio da sua enteada, a queda ao sair do café onde ia todas as tardes, as entradas e rápidas saídas, que ele mesmo exigia, dos hospitais já que o seu empenho era gastar o mínimo de dinheiro possível, as várias e sucessivas doenças, um drama que ele carregava sobre os ombros.

Sofreu, em Março passado, um ictus cerebral tendo morrido em casa, na sua cama, tranquilo, segundo um amigo, no passado domingo, 4 de Junho.

Conseguiu reparar a injustiça social de que padeceram todos os membros da sua tribo, condenados à pobreza e ao analfabetismo.

Hoje, Jalid concluiu um ciclo de formação profissional, Rida estuda cinema em Marrakech e Yunes terminou, este mês, o curso de engenharia em França.
Esmeralda Botto Antas