Mozart: do talento ao estudo
Assinalou-se a 27 de Janeiro de 2017 o 261º aniversário do nascimento de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), um dos maiores compositores de sempre. Criança-prodígio, costuma ser apontado como exemplo dos bafejados pelo talento. Mas o génio musical de Mozart não pode ser explicado apenas pelo talento inato, apesar dele não prescindir.
Desde o nascimento, o pequeno Wolfgang esteve ao cuidado de um dos maiores professores de música do século XVIII: o seu pai Leopold Mozart, afamado violinista e autor de um tratado de violino usado para a formação de gerações de instrumentistas. Leopold proporcionou ao filho uma educação musical esmeradíssima, tendo-o levado em viagem pela Europa, onde beneficiou da exposição à melhor música do seu tempo e da aprendizagem com os melhores na arte, como Giovanni Baptista Martini em Bolonha ou Johann Christoph Bach em Londres. É ao cuidado de Leopold (e à promoção que foi procurando fazer do filho) que se deve a preservação e sem dúvida a correcção das obras pueris do jovem Wolfgang.
Já músico consumado e consciente do seu valor, Wolfgang entra em colisão com o modelo vigente em que o músico é um simples assalariado de um grande senhor (no caso o arcebispo de Salzburgo). Ao contrário de outros grandes compositores seus contemporâneos, que vão gerindo os incómodos dessa situação da melhor forma (Johann Sebastian Bach com os burgueses de Leipzig, Carl Phillip Emannuel Bach com Frederico II da Prússia, Haydn com o príncipe Esterházy), Mozart torna-se um dos primeiros músicos a assumir a condição de profissional liberal, bem como as vantagens e agruras subjacentes, acabando por se estabelecer em Viena. A dignidade e consciência da sua grandeza encontra-se por exemplo no célebre episódio em que, após ouvir a ópera “O rapto no serralho”, o imperador José II da Áustria se terá queixado a Mozart da extensão: “Há notas a mais!”. “Há exactamente tantas quantas lá devem estar.”, replicou o compositor.
Apesar do seu inegável talento e da sua facilidade de escrita musical, Mozart nunca desdenhou o “honesto estudo com longa experiência misturado”: as suas últimas obras revelam um compositor que está a aprofundar o estudo de Bach e de Händel e que se deixa influenciar profundamente por estes mestres, absorvendo e actualizando estes modelos. Em nenhuma outra obra se pode ouvir melhor este já grande compositor a crescer pelo estudo e pela experiência do que no Requiem, que acaba por ser o seu testamento musical.
Rui Vilão
28/Janeiro/2017
