O meu filho saiu de casa e o mundo acabou.

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Foi uma coisa de dissolução da identidade. Tinha sido durante 23 anos mãe provedora e isso, há muito indissociável da minha identidade, tinha acabado.

Está a fazer agora dois anos. Foi ao princípio da tarde, eu estava no Parlamento a tentar trabalhar e o meu filho ligou. Ele nunca gostou muito de falar ao telefone. De alguma forma, o meu corpo passou a antecipar notícias chatas: o incêndio na cozinha, uma confusão no aeroporto de Budapeste, etc..

 

Perguntei “o que é que aconteceu”.

— Mãe, tens que deixar de pensar que quando eu telefono é porque aconteceu alguma coisa má.

Estava tudo óptimo. Ele tinha encontrado uma casa que podia pagar perto do Martim Moniz, três meses depois de fazer 23 anos. Aquilo estava a acontecer e não estava a acontecer. O meu “eu” racional acabou a conversa sem dizer nada errado. Que bom, casa barata, Lisboa está um caos. É normal. Era tudo normal, normalíssimo, saudável, espectacular. Tudo normal menos eu.

 

Depois as coisas baralham-se naquele mês em que o meu mundo acabou. Não, não é que o mundo esteja diferente. Simplesmente o mundo que eu conhecia acabou.

 

No dia em que fomos assinar o contrato de arrendamento, íamos ali na Segunda Circular, eu estava a ter uma conversa articulada (acho) sobre a sede do PCP e de repente parei. Não me lembrava do que estava a dizer, não sabia se era um ataque qualquer. Não era um desmaio, mas uma sensação de desligamento da realidade. Entrei em pânico, consegui disfarçar o pânico. O meu filho não podia saber disso. Era de evitar que num dia importante da sua vida concluísse que tinha uma mãe em alucinação. Essa parte de ter conseguido fingir que não estava a pifar e estava tudo óptimo ainda me orgulha um bocado.

 

Foi só o princípio. Trabalhei quase todos os dias nesse Agosto de 2017. Entrava no gabinete, ligava o computador, o televisor — e começava a chorar. Os meus colegas entravam e saíam. O V. ria-se à gargalhada, a M. tentava consolar-me, os outros não sabiam o que fazer. Não é normal chegar ao trabalho e todos os dias levar com aquilo. Os meus colegas levaram. Foram fantásticos.

 

Os amigos não conseguiam perceber — é capaz de ter sido a única altura da minha vida em que achei que não tinha ninguém com quem falar. Se estava tudo bem, porque é que estava tudo mal? É normal que seja incompreensível. Vá, a minha mãe percebeu.

 

Foi uma coisa de dissolução da identidade. Tinha sido durante 23 anos mãe provedora e isso, há muito indissociável da minha identidade, tinha acabado. Havia uma data de coisas que a partir daí eu já não faria mais. Comprar bolachas Carr e outras cenas variadas são apenas símbolos menores. Dei por mim a invejar penosamente a minha melhor amiga porque os miúdos vivem ainda lá em casa e ela é mãe provedora. Ao fim de ano e meio, consegui mudar para o quarto maior da casa, que era o dele. Se já passou? Não. Mas está tudo óptimo. Na verdade, bótimo — melhor que bom e melhor que óptimo.

(Isto foi o que eu contei à Vanessa só porque ela me perguntou).

 

Ana Sá Lopes,

CRÓNICA DA VANESSA,

Público, 2 de Agosto de 2019