O pesadelo está de volta

Corria o ano de 2008. Nessa altura escrevi uma crónica com o título “Fim de um Pesadelo”. O presidente era Bush, de má memória, nessa data deixava a presidência dos Estados Unidos da América (EUA). 

Passaram 8 anos. O pesadelo está de volta, talvez para pior. O presidente eleito dos EUA, pelas suas intervenções e pelas medidas que em tão pouco tempo já tomou, traz de volta o pesadelo.
Começou por anular leis que garantiam alguns serviços de saúde que beneficiavam os mais necessitados, para voltar aos grandes interesses do comércio com a doença das companhias de seguros. O povo fica pior.
Prometeu “baixar os impostos maciçamente”, beneficiando as grandes companhias, os bancos, o grande capital.
Perante um pequeno grupo de 12 grandes empresários prometeu a redução de impostos aos lucros das grandes empresas e do grande capital, castigando e atingindo a segurança de quem trabalha. 
 Assim, com uma assinatura vai aumentar obscenamente a riqueza de alguns especuladores, sacrificando a maioria dos cidadãos daquele país e do mundo global, facilitando a concentração de riquezas em poucas mãos.
Presidente de um grande e poderoso país, a primeira economia do mundo, principal fabricante e vendedor de armas a nível mundial, armas que alimentam guerras, conflitos e também o terrorismo. Um negócio que promete prosperar.
Presidente com uma riqueza pessoal colossal, recusou declarar ao fisco o que tem e o que ganhou com a fuga aos impostos e com negócios ilegais.
Um presidente que traz ao mundo apreensões. O racismo ainda marcante na sociedade americana vai ter recrudescimento e já dá sinais. As clivagens sociais e as promessas de mais repressão vão gerar mais violência, e vão agudizar-se. 
O fosso entre ricos e pobres vai crescer, de um lado os muito, mas mesmo muito mais ricos e do outro lado muitos e muito mais pobres e de pobreza mais degradante. 
Rodeado de uma corte de politicos impreparados, que tudo avaliam pelo músculo, pela ameaça, pela repressão, vamos ter anos de prepotência, com mais polícia. 
Rodeado de familiares e de bajuladores na espera de benesses, promete governar repelindo os críticos e os descontentes. 
A nível internacional promete e já começou a dar sinais de desentendimentos com muitos países. Com declarações e provocações à China, ignorando que a China já não é a China de há vinte anos atrás, país também com investigação, tecnologia e de muitos milhões.
O mundo financeiro, com o seu centro mais importante naquele país, vai continuar especulativo, sem normas, indiferente à sorte dos povos. 
Prometeu fazer um muro alto em toda a extensão de fronteira com o vizinho México. Com pesporrência, disse que o muro será pago pelo México. Muro e arame farpado já fazem fronteira, mas a arrogância de fazer disso sinal de progresso é um ultraje ao entendimento entre povos vizinhos.
A candidata derrotada nas eleições teve mais votos, uns 3 milhões mais. A sua eleição resultou de um processo eleitoral pouco democrático, e que dá vitórias a campanhas com muito dinheiro.

Prometeu obras públicas, mas sem deixar ver quem as paga. As grandes fortunas vão crescer, mas não são as grandes fortunas que garantem mais investimentos. 
A economia parasitária, sem trabalho, como são as aplicações especulativas na bolsa de valores, essas dão sinais de euforia. 
Como durante os mandatos de Bush, as indústrias de armas para as guerras, a pretexto do terrorismo, fizeram negócios fabulosos. Uma economia de mercado sem ética, de liberalismo absoluto. 
Como Bush, as medidas de redução das despesas sociais, como medidas para dinamizar a economia e criar postos de trabalho, resultaram numa crise financeira que arrastou muitas economias para as falências, com crises sociais, mais desemprego, mais pobreza, mais insatisfação. E é nas crises sociais que o terrorismo encontra os seus estímulos. 
Recebeu o poder em situação financeira equilibrada. Tudo leva a crer que vai deixar o país endividado. 
Vamos ter anos de mais conflitos espalhados pelo mundo, e talvez mais episódios de terrorismo. 
O que nos promete não vai trazer mais democracia, nem mais liberdade, nem mais respeito pelos direitos humanos. Talvez mais ditaduras, mais racismo, mais xenofobia. 
Vai levar dificuldades a governantes que não o sigam, pressionar outros à submissão, apoiar políticos medíocres e corruptos. 
Temos razões para esperar um mundo mais vulnerável e mais exposto ao terrorismo. 
Mais crises financeiras, mais crises económicas e sociais de âmbito global, mais condições para o desespero, inspirador de violência. Mais pobreza e muitos mais pobres. 
Os mais ricos vão fazer a festa, com os sacrifícios dos mais pobres. 
Não é político com perfil para governar um país como a América. 

 Um seguidor das doutrinas da economia de mercado, do liberalismo económico, que lhe deu a riqueza de que é dono. 
O pesadelo está de volta.

Manel Miranda