Poema erótico de Drummond de Andrade

 

'Satânico é meu pensamento a teu respeito, e ardente é o meu desejo

de apertar-te em minha mão, numa sede de vingança incontestável pelo que me

fizeste ontem.

A noite era quente e calma e eu estava em minha cama, quando,

sorrateiramente, te aproximaste. Encostaste o teu corpo sem roupa no

meu corpo nu, sem o mínimo pudor! Percebendo minha aparente indiferença,

aconchegaste-te a mim e mordeste-me sem escrúpulos. Até nos mais íntimos

lugares. Eu adormeci.

Hoje quando acordei, procurei-te numa ânsia ardente, mas em vão. Deixaste em

meu corpo e no lençol provas irrefutáveis do  que entre nós ocorreu durante

a noite.

Esta noite recolho-me mais cedo, para na mesma cama te esperar. Quando

chegares, quero te agarrar com avidez e  força. Quero te apertar com todas as

forças de minhas mãos. Só descansarei quando vir sair o sangue quente do teu

corpo.

Só assim, livrar-me-ei de ti, mosquito filho da puta! ' 

Carlos Drummond de Andrade