Um vazio difícil de preencher

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A morte de Afonso Dhlakama deixa o país inteiro mergulhado numa incerteza sobre o futuro da paz e da democracia moçambicanas. Talvez o nível de preocupação fosse menor caso o seu desaparecimento tivesse ocorrido num momento de paz consolidada, reconciliação nacional e de democracia estável. Mas hoje há mais incertezas e perspetivas menos boas sobre o que vem a seguir.

Afonso Dhlakama deixa os importantes processos de pacificação e de democratização do país ainda longe de estarem finalizados. Era ele o ator-chave e detentor das memórias descritivas de todos estes dossiês, não se conhecendo outra figura interna na Renamo que possa dar seguimento ao seu trabalho sem ameaças de rutura.

Talvez seja por isso que o Presidente da República, Filipe Nyusi, tenha reagido de forma tão emocionada ao desaparecimento do líder da Renamo. “Momento mau para todos nós. Pior para mim. Ontem [quarta-feira] estive a fazer esforços para ver se transferia o meu irmão [Afonso Dhlakama] para fora do país... Estou desde ontem sem dormir para ver se conseguia resolver o problema do meu irmão. O peso para mim é maior do que para todos os outros. Tentei transferi-lo e não consegui. Estou muito deprimido, porque eu devia ter conseguido fazê-lo. Fui infeliz”, disse Filipe Nyusi na Televisão de Moçambique.

Na mesma mensagem, o chefe de Estado moçambicano mostrou-se preocupado com o futuro dos processos que estavam em discussão com o líder da Renamo, mas espera que os moçambicanos consigam “continuar a fazer tudo por tudo para as coisas não irem abaixo. Ele fez tudo para que houvesse paz. A última vez que falou comigo disse que não vai falhar nada. Portanto, sinto-me deprimido porque não consegui tempo para resolver o problema dele [de doença].”

Afonso Dhlakama encontrava-se em crise de diabetes, doença que se agravou na semana passada. O estado de saúde do líder da Renamo piorou no final do dia 1 de maio, terça-feira. No dia 2, a sua saúde estava instável. Por voltas das 6 horas da quinta-feira, 3 de maio, Dhlakama terá chamado ao seu quarto os seus colaboradores mais próximos e disse-lhes para contactar o helicóptero que iria trazer o médico para o assistir. Porém, duas horas depois, cerca das 8 horas da manhã (em Moçambique), perderia a vida.

O Presidente da República afirmou que só soube da situação de Dhlakama quando já “estava em agonia”. Para ele, Dhlakama “foi um cidadão que sempre trabalhou para Moçambique.”

 

José Jaime Macuane, um dos destacados politólogos moçambicanos, disse, em entrevista ao semanário “Savana”, um dos principais jornais nacionais, que a morte de Dhlakama muda radicalmente o cenário político, isto porque “estávamos diante de uma negociação em que Afonso Dhlakama era a contraparte central do processo”. Para Macuane, o problema é saber quem vai ser o interlocutor válido neste processo. E entende que esta situação chama a atenção para a fragilidade do “nosso processo político, que está centralizado em pessoas, como é caso”.

Este cenário traz incerteza para o país. A leitura sobre as incógnitas que pairam sobre os processos políticos nacionais é feita também, no mesmo jornal, por um outro destacado político moçambicano, Adriano Nuvunga.

Nuvunga destaca que as bases materiais para o desenvolvimento democrático “foram estruturadas por ele e pelo seu partido, sem deixar de lado a abertura ao multipartidarismo”, daí figurar na lista dos construtores da democracia moçambicana.

 

Neste momento iniciou-se o debate sobre quem irá suceder a Afonso Dhlakama e de que lado virá. A Renamo tem duas alas que se subordinavam completamente ao seu líder. Uma ala militar, que se encontra desde sempre a viver nas matas mesmo após o acordo de paz de 1992. E outra ala, política, que vive na cidade, e cuja maioria dos integrantes nunca combateu. Dhlakama foi recrutado nas cidades para representar a Renamo no parlamento e conseguia coordenar as “duas Renamos”.

No atual contexto político-militar, há fortes possibilidades de o sucessor de Dhlakama ser proveniente da ala militar com a qual vivia na Gorongosa. Por enquanto, ninguém quer avançar nomes concretos.

Yaqub Sibindy, sobrinho de Afonso Dhlakama e presidente do Partido Independente de Moçambique (PIMO), vaticinou nas redes sociais que “Dhlakama será substituído por um presidente, proveniente da ala militar, onde o general terminou a sua vida! [...] O futuro presidente da Renamo não virá da ala parlamentar ou da Avenida Ahmed Sekou Touré, onde se hospeda à sede nacional da Renamo!”

A comissão política da Renamo deverá reunir-se hoje na cidade da Beira para decidir o local de depósito dos restos mortais do seu líder e os detalhes do evento. 

Imagem retirada da net