A astúcia do tigre
A astúcia do tigre
É uma história de arrepiar.
Para poder subsistir, cada animal tem o seu modo especial de defesa. E não são só os de tamanho menor. São como as pessoas, que agem consoante os instintos e as maldades.
Não, não vou entrar por este caminho. Refiro-me, sim, à astúcia, tão presente nos animais quanto nos homens; e, para a compreender, nada melhor que falar do tigre, esse animal insaciável que mata por prazer, felino nada comparável com a hiena, que só come o que sobra dos outros.
Diz quem sabe, que o tigre, ao qual não faltam forças, armas e ligeireza, vai aos sítios onde há abundância de bugios – não me mandem bugiar já! –, de cuja carne é amicíssimo, e deitando-se no chão, debaixo de uma árvore qualquer a que costumam acudir, põe-se ali como morto, sem tugir nem mugir, sem bulir consigo, parecendo até que nem respira .
Então os bugios, que traquinam em cimo da árvore, temendo-se dele – quem tem cu tem medo -, mandam lá um, como espia, verificar se o bicho está mesmo morto ou se está apenas a fazer fita. Depois de se abeirar deste mau vizinho, e de ter constatado, mal, que aquele bicharoco já não faria mal a quem quer que fosse, bugio ou primo mais ou menos afastado, regressa para junto dos companheiros e dá a boa nova. Todavia, pelo sim pelo não, cometeu a proeza uma outra vez, e como não há duas sem três, lá foi outra vez mais, com êxito.
Sobe a árvore o espia, descem-na os demais. Alegres e brincalhões, começam a saltar por cima do inimigo, fazendo momices, dando risadas, como quem triunfa de um inimigo.
A este tempo, o “morto”, vendo-se cercado da caça apetitosa que esperava, “ressuscita” a grande pressa; e, dando sobre a bugiada, com unhas e dentes, despedaça quantos pode, convertendo-lhes a festaria em choros lancinantes, pagando, assim, a temeridade da sua louca ousadia.
Com bichos destes, que atacam pela calada ou à sorrelfa, todo o cuidado é pouco!
(Moral da história: adivinhem lá em quem estava eu a pensar enquanto escrevia isto)
